Vamos continuar sendo quem somos

“Prego que se destaca merece martelada”, me disse uma vez minha mãe. Deve ter sido em uma das várias vezes que eu chorei no colo dela depois de ter sido tratada mal na escola. Eu não lembro direito, só sei que ela me disse isso e nunca mais esqueci. Minha época na escola não foi das melhores e não é algo que eu me lembre com uma gostosa sensação de nostalgia. Foi mais difícil do que legal, foram mais memórias estranhas do que deliciosas. Eu era diferente. Mas quem não é? Hoje eu acho que somos todos diferentes, só que conseguimos esconder em diferentes níveis. Alguns conseguem fingir pertencimento melhores do que outros. Todos nós temos algo que nos faz único, diferente, singular, prego que merece martelada. Não tenho dúvidas. E acho que eu não sabia me misturar direito. Eu era quem eu era e claro que na escola as coisas são um pouco piores, porque estamos com uma tonelada de inseguranças, preocupações e questionamentos em nossas costas. Seria tudo muito mais fácil se ser diferente fosse… normal. Se o fato de alguém fazer ou ser de uma maneira diferente não fosse horrível, abominável, oh meu deus, destruam essa pessoa.

Na sexta série pagaram, com um saco de balas, para uma das alunas, Ana Maria era o nome dela, me bater na saída da escola. Ana Maria era uma aluna que havia repetido de ano várias vezes, mais velha, que sempre me pedia ajuda com as tarefas e as provas. Eu passava cola pra Ana Maria na esperança que ela gostasse de mim. Eu era muito nerdinha e fazia isso com quase todos da minha sala, porque eu queria que eles gostassem de mim, que eles me aceitassem. Ana Maria, naquele dia, me parou no banheiro e disse “olha, me pagaram um saco de balas pra eu te pegar na saída, mas como você nunca fez nada pra mim e é uma das poucas que me ajudam, tô te avisando. Se eu fosse você, eu ia embora agora”. Eu fui pra sala, peguei minhas coisas e fui pra Diretoria e pedi pra ligar pra minha mãe, que veio me buscar. Eu lembro de nunca ter chorado tanto até aquele momento. Eu perguntava pra minha mãe qual era o problema comigo. Por que as pessoas não gostavam de mim?

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Na oitava série minha perna começou a apresentar alguma penugem, loira, loira, loira. Minha mãe me proibiu de raspar, disse que iam ficar grossos e escuros, nem dava pra notar, melhor eu esperar um pouco até eles serem suficientemente aparecidos e a gente te leva na Ina (Ina, nossa depiladora). E eu é que não ia deixar de usar shorts naquele calor. Um dia, numa dessas ocasiões que o professor falta e não tem substituto, ficamos todos no pátio, e quando crianças de 14 anos não têm nada melhor para fazer quando juntas, elas jogam “Verdade ou Desafio”. Numa das rodadas uma das pessoas – nem lembro se era menino ou menina – caiu comigo e me perguntou, com uma cara meio de nojo “Por que você não raspa a perna?” e todo mundo começou a rir. Eu lembro de ter juntado todas as forças que eu tinha comigo e responder algo como “minha mãe não deixa ainda” e em seguida me levantar e sair. Não me lembro de ter me sentido mais humilhada do que naquele dia, aos 14 anos, até que em outra brincadeira, dessa vez na sala de aula, um menino ser desafiado a “ter coragem de beijar a stephanie”. Ele me roubou um selinho em meio a gritos de “uhhhhhh”, “ahhhh”, “corajoso!” e coisas do tipo. Naquele dia eu também senti que não havia humilhação maior. Hoje eu lembro disso e dou risada. Contei todas essas histórias várias vezes para os meus amigos dando risada. Mas na época doeu e doeu muito. O menino que roubou o beijo também era diferente. Mas ele era o diferente gatinho que faz muita bagunça e é meio bad boy. Ele escondia a diferença dele de um jeito que eu não conseguia. Um dia, alguns anos depois, quando eu tinha 17, lembro de tê-lo encontrado no corredor da escola em que eu estudava, uma ETEC, e ele estava fazendo uma prova. Ele me disse que sentia inveja por eu ter conseguido estar onde eu estava e meu deu os parabéns.

Eu já chorei muito quando eu era adolescente. Já me perguntei mais do que o normal o que havia de errado comigo. Já quis me machucar porque só podia haver um problema comigo. Já quis simplesmente fazer bum e deixar de existir porque seria muito mais fácil. A coisa que eu mais queria era pertencer, mas eu não sabia como. E mesmo quando eu tentava, soava falso. Não era eu. Eu não convencia como outra pessoa.

Quando entrei na faculdade eu achei que os tempos de me sentir diferente tinham ficado pra trás. Eu finalmente estava pertencendo. Ao meu redor estavam tantas outras pessoas que já haviam se sentido como eu me sentia, tantas outras pessoas estranhas, diferentes, maluquinhas, nerds, que gostam de dançar ouvindo a abertura de Pokémon. Era tão bom estar lá porque eu finalmente podia ser eu em um ambiente onde todos eram eles, de verdade, sem medo, sem máscaras. Eu não precisava mais ter medo de simplesmente ser. Eu encontrei amigos que se sentiam como eu, e que em toda a sua singularidade, respeitavam a minha própria.

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Eu não sou especial. Eu falo de um jeito diferente, eu movimento as minhas mãos mais do que muita gente acha normal, eu tenho cara de criança mesmo tendo 25 anos, eu gosto de falar de batom e de produto pra cabelo com o mesmo amor com que gosto de falar de feminismo e gêneros. Isso não me torna especial. Mas é diferente. Porque todos somos diferentes. E mesmo quando a gente cresce, em diferentes níveis, é preciso pertencer. É preciso se enquadrar. Mas é preciso mesmo? Ou fazem a gente acreditar que é? É preciso de verdade ou é só medo, estranheza, dificuldade de lidar com o diferente?

Esses dias eu chorei perguntando o que havia de errado comigo, depois de muito tempo. Eu quis ser capaz de enfiar a mão dentro de mim mesma e tirar de lá tudo o que me faz singular, tudo o que me faz ser quem eu sou e outra vez eu só quis como qualquer outra pessoa. Eu quis me abrir inteira e fazer sair de lá tudo o que apontavam em mim. Quis gritar tão alto de um jeito que todas as minhas particularidades saíssem correndo, expulsas, acuadas, e nunca mais voltassem. Eu quis, de novo, ser outra menos eu.

É a coisa mais fácil do mundo machucar alguém. É a coisa mais simples apontar algo que cause estranheza. É a coisa menos trabalhosa que há dizer algo ruim sobre alguém e travestir de opinião sincera. É muito simples fazer doer algo em alguém. As pessoas dizem o que dizem porque podem. Porque é simples. Porque é só apertar um botão. É muito cômodo se sentir melhor com você mesmo apontando o que há de errado no outro. Não é necessário coragem, nem força, nem decência, nem rosto.

Mas é sim necessário força e coragem pra continuar com o rosto erguido exibindo todas as suas particularidades. Todas as suas diferenças. Todas as suas excentricidades. É muito mais simples desistir, aceitar, sofrer, se machucar, se esconder, fugir.

Eu não quero fugir. E eu não quero aceitar, e eu não quero me esconder. Eu sou quem eu sou. E eu não vou mudar. Ninguém deveria mudar. Ninguém deveria se esconder, fugir, aceitar, fingir, acuar-se. Ninguém. O problema não é nosso. É deles. Eles que lidem com a dificuldade em aceitar. Eles que lidem com a necessidade de martelar qualquer diferençazinha. Eles que se incomodem com tudo que lhes pareça estranho, errado, diferente, excêntrico, particular, fora da curva. Eu não vou me endireitar. Você não vai entrar na linha. Nós não vamos abaixar nossa cabeça. Ninguém deveria. E ninguém vai. Vamos continuar a ser diferentes. Estranhos. Únicos. Loucos. Singulares. Extraordinários. Satisfeitos. Confiantes. Felizes, por fim.

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Como cuido do ruivo?

Ai migas e migos, tô sumida né? Cês me perdoam? Tô com várias ideias na cabeça mas tô numa fase meio estranha, ainda tô pensando muito nesse post aqui, sobre me sentir uma fraude e sabe quando você acha que a sua ideia é tão ruim que nem vale a pena colocar em prática? Não sei bem como sair disso, mas estou tentando. E os comentários de vocês me fizeram muito bem, e acho que a todo mundo que leu também. Vocês são incríveis.

Enfim, eis a segunda parte do vídeo sobre cabelo ruivo :) Nesse aqui eu contei quais são meus cuidados, o que mudou na minha rotina (muita coisa!), quais meus produtos preferidos, etc. Espero que vocês gostem!

Produtos citados no vídeo:

Linha Color Extend Magnetics – Redken

Linha Vitaminocolor – L’Oréal Professionnel

Shampoo Bain Chroma Captive – Kérastase

Monodose de Glucomineral Cristalceutic – L’Oréal Professionnel

Leave-in Uniq One – Revlon Professional

Shampoo Seco Pillow Proof – Redken

Shampoo Seco XXL Volume – Batiste

Qualquer dúvida, deixem nos comentários :)

Bisous, bisous ;***

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Influências da infância com a Flávia Calina

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Na semana passada a Flavia Calina, essa mulher maravilhosa e inspiradora (o canal dela é esse, tem que conhecer!) veio aqui em casa para papearmos e gravarmos vídeos juntas. Conheci a Flá por causa da matéria das vloggers que fiz para a Glamour, quando ainda trabalhava lá, e nos demos bem de cara. A história dela é tão legal, e ela é uma dessas pessoas que você se sente bem só de estar por perto, uma energia especial <3 E aproveitamos que ela estava no Brasil pra gravar! O vídeo que gravei com Flavinha pro meu canal vai demorar um pouco pra entrar, e depois eu explico o porque, mas o que gravei com ela foi tão legal, e contei tanto de mim, que tive que vir compartilhar.

Pra quem não conhece o canal dela, a Fla tem uma filhinha, a Vitória, e ela já foi professora de educação infantil. Então o assunto infância é tanto do interesse quanto do conhecimento dela. E por isso ela criou essa série sobre infância, que eu tive a honra de ser a primeira a responder <3 Fla, muito, muuito obrigada pelo convite. Foi especial dividir todas essas memórias com você :)

Quem leu meu post sobre infância já vai saber algumas coisas, mas contei outras tantas memórias especiais – tão especiais que eu fiquei até emocionada no vídeo. Queria que vocês assistissem e me contassem o que acharam, suas memórias…

Espero que tenham gostado!

Bisous e até mais,

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Como fiquei ruiva! (e minha história capilar) | Chez Noelle TV

Oie! Então que um dos vídeos mais pedidos dos últimos tempos está no ar! Falei sobre como fiquei ruiva, contei – e mostrei – minha história capilar e falei o que acho essencial na hora de pintar.
Qualquer dúvida que vocês tiverem, deixem nos comentários :)

Espero que vocês gostem! <3

Aqui os links e contatos que eu cito no vídeo:

Liceu de Maquiagem (11) 3083-0500

Marjory, que faz minha cor: instagram.com/marjorysilva

Blog da Paula Buzzo: http://www.naoprovoque.com.br/

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Eu quero e eu posso.

Nesse 8 de Março eu queria dizer a todas nós, de uma vez: Continuem. Continuem com a luta. Continuem sendo fortes. Continuem sem abaixar a cabeça. Continuem sem medo. Continuem sendo vocês. Continuem com a coragem. Ainda há muito para ser feito, então continuemos.

Eu não seria outra coisa que não mulher. Mas não é fácil. Todos os dias estamos lutando. Estamos buscando afirmar nosso lugar no mundo. Estamos respondendo a ofensas e destruindo estereótipos. Todos os dias, um após o outro, estamos derrubando barreiras. Se eu uso um batom vermelho, é porque eu quero e eu posso, não porque sou vadia. Se eu não uso maquiagem, é porque eu quero e posso, e não porque sou relaxada. Se eu uso saia, é porque eu quero e eu posso, não porque estou buscando sua atenção. Se eu só uso roupas largas, é porque eu quero e eu posso, não porque sou “caminhoneira”. Se eu trabalho com moda, é porque eu quero e posso, não porque eu sou fútil ou menos inteligente. Se eu trabalho com engenharia, é porque eu quero e posso, não porque eu sou masculina. Se eu não me interesso por cozinha, ou coisas da casa, ou trabalhos manuais, é porque eu simplesmente não me interesso, isso não é meu dever e muito menos “meu lugar”. Se eu respondo a sua ofensa ou sua cantada, é porque eu quero e eu posso, não porque eu sou ‘nervosinha’. Se eu não aceito que você diga que isso não é coisa de mulher, é porque eu posso, não porque eu sou revoltadinha. Se eu danço até o chão, é porque eu quero e eu posso, não porque não me dou valor. Se eu não danço e quero ficar sentadinha, é porque eu quero e eu posso, não porque “um bicho me mordeu”. Se eu quero emagrecer, é porque eu me sinto mais bonita assim, não porque você prefere assim. Se eu quero ter curvas ou colocar silicone ou fazer academia ou não me importar com meu peso, é porque eu me sinto melhor assim, não porque ‘homens gostam de ter onde pegar’. Se eu não quero te beijar, se eu não quero transar com você, se eu não me interesso pelo sexo oposto, é porque eu não quero e eu tenho esse direito, não fui feita para atender aos seus desejos. Se eu quero fazer sexo no primeiro encontro, é porque eu tô com vontade e eu posso, não porque sou fácil. Se eu não quero fazer sexo com você, ou com ninguém, até o dia em que eu mudar de ideia, é minha decisão, não sua. Se eu vou ser mãe, é porque eu quero e eu desejo, e não porque vocês acham que eu nasci pra isso. Se eu não quiser ser mãe, é porque eu tenho esse direito, não sou um ser extraterrestre ou ‘você diz isso agora…’. Se eu quero priorizar o meu trabalho, é porque eu tenho esse posso. Se eu quero liderar, é porque eu tenho esse direito, não porque sou ‘mandona’. Se eu quero ganhar o mesmo salário de alguém que faz o mesmo trabalho que eu, mas tem um pênis, é porque eu tenho esse direito. Se eu quiser uma família, ela precisa ser igualitária, e você não vai me ouvir dizendo ‘ohhhh que maravilhoso’ por você lavar a louça ou trocar a fralda de um filho que é de nós dois. E eu quero isso porque é meu direito. Eu quero respeito e ele é meu desde que eu nasci. E você não vai me dizer que “eu me dou ou não me dou ao respeito”. isso não é você quem vai dizer. O respeito é meu por direito. Porque eu sou igual a você, em capacidade, em inteligência, em desejos, em tudo. Eu tenho um útero e isso não me faz inferior. Eu quero ser tratada de igual para igual e eu não vou admitir que você me diga que eu não posso. E eu não vou aceitar você dizendo como deve ser a minha luta ou o meu feminismo. Eu não vou abaixar a minha cabeça e eu não vou ter medo do que você vai me dizer. E eu não vou humilhar ou envergonhar outras mulheres por escolhas diferentes das minhas. Porque estamos juntas nessa. A opressão vem para todas. E as conquistas também. Eu vou fazer as minhas escolhas, você gostando ou não. E eu vou afirmar o meu lugar como mulher, e eu vou lutar contra estereótipos dizendo que eu sou sensível, frágil, delicada, maternal, compreensiva. Eu posso ser tudo isso. E eu posso não ser nada disso. Porque eu sou humana. Porque eu sou mutável. Mas sabe o que eu sou e todas nós somos? Corajosa. Porque é preciso coragem pra ser mulher e não ter medo de ser quem a gente quiser ser e escolher o que quisermos escolher.

Continuemos. E continuemos juntas. A luta segue.

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coracao

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Em busca de agrados?

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A gente sai de um assunto sério pra falar de… lojinha no Enjoei. Essa é minha terceira vez – três é um charme, não dizem isso? – vendendo meus enjôos lá no site que eu mais tenho apego. E dessa vez eu caprichei. Como vocês sabem, mudei de casa. E de brinde ganhei um quarto menor rs. Mas foi ótimo, estou amando e aprendi a me desapegar de mil coisas que sinceramente não estão me fazendo a menor falta. Não dá pra viver de coisas acumuladas, é uma energia ruim e aí a gente fica na cabeça achando que precisa ter ter ter ter ter. Não, não é fácil. Eu sofri, mas foi na marra. Ou eu deixava ir ou não tinha cama pra dormir, haha! Enfim, disso tudo saiu uma malona + uma sacola extra de coisas pro Enjoei. Têm muita coisa que eu ainda amo, mas não fazem mais sentido com quem eu sou hoje.

Então tá, vai lá comprar um agradinho :)

Esses são meus preferidos, ó:

Captura de Tela 2015-03-05 às 20.42.42Esse vestidinho aqui eu comprei em Paris, numa lojinha do Marais. Eu AMO ele, só que eu comprei muito na pressa, não experimentei e o resto vocês já imaginam… 

Captura de Tela 2015-03-05 às 20.42.53Essa camisa da Têca é um primor! E o tecido é ótimo, bem de qualidade.

Captura de Tela 2015-03-05 às 20.44.48Esse vestido é de boneca, só isso que eu tenho a dizer.

Mas tem mais um montão de coisinhas por lá. Se estiver afim, clica aqui embaixo e me ajude a conquistar mais um sonho <3 (não é chantagem, eu juro!)

Bisous mil!

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Queria me costurar no mundo

Quando eu era adolescente e estava no cursinho, eu fui uma Stephanie exemplar. Eu estudava tanto. Eu me dedicava tanto. Eu era focada de um jeito muito doido. Eu acordava, ia pro cursinho, não dormia em nenhuma aula – juro pra vocês –, sentava na primeira fileira. À tarde, eu só fazia estudar. Eu tinha metas e eu só descansava depois que eu cumpria. Eu aboli a internet da minha vida naquele ano, não via série, não ficava papeando no facebook. Eu me divertia também, claro. Não estudava de fim de semana quase nunca, lia bastante, ia ao cinema, via o David, que tava na mesma… Mas nossa, eu me lembro dessa época e penso: meu deus, que mulher! Eu fui tão determinada, consegui realizar meu sonho – o de passar na USP (e na unicamp e na unesp), e apesar de ter sido um ano louco e de sacrifícios, valeu muito a pena.

menina

Hoje o que eu mais faço é me perguntar: por onde anda essa Stephanie? Especialmente nesses momentos, como o que eu estou agora, em que dia sim, dia também, eu me acho uma fraude. Acho que não estou indo pra lugar nenhum, não estou me movendo, não estou conquistando nada. Soma-se a isso o querer MUITO. Eu quero muitas coisas. Quero realizar muitos planos, conquistar muitos sonhos, vivenciar muitas experiências. Muito, muito, muito. Mas a conta nunca fecha. O querer ainda não está se transformando em poder, e eu me pergunto: por onde anda essa Stephanie? Por que quando a gente cresce as coisas – e são ‘as coisas’ mesmo, porque elas são genéricas, não têm nome, surgem do nada e sem explicação – ficam no meio entre o que queremos e o que realizamos? As preocupações que nos deixam com dor de cabeça e nos tiram a vontade de fazer tudo. Uma inércia de querer fazer, mas ter medo de não funcionar. O dia a dia, que parece que te engole e de repente você não riscou um mísero item na sua listinha de afazeres. Às vezes eu olho de trás pra frente e não entendo o que aconteceu. Por que não rolou? Porque não rolou, ora essa.

E tem dias, e esses são os piores, que eu penso grande. E eu sonho imenso. E eu fico paralisada. Eu não consigo, apenas não consigo. Eu fico com medo de tudo dar errado antes mesmo de verbalizar aquilo. Ou eu verbalizo. E aí alguém diz algo. E aí eu desmorono e desisto e falo “mas que merda” e guardo na gaveta das ideias nunca realizadas.

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Por que quando a gente cresce o medo cresce também? Não era pra gente ficar mais sábio, mais forte e mais corajoso? Por que ninguém me disse que o mais difícil da vida adulta não era pagar o aluguel, mas o de sentir que sua vida não é só mais um grãozinho de areia na infinidade de areias do mundo. Por que eu tenho aqui latente no meu peito essa vontade de não ser esquecida, mesmo sabendo que é esse o destino de todos nós?

Outro dia David me disse que achava que éramos mais felizes quando conhecíamos mais do mundo. Queria ser David nessa hora. Eu só acho que fica mais difícil ser feliz sabendo tanto do mundo e querer tanto ser do mundo e fazer parte do mundo e me costurar no mundo.

Na escola, eu conhecia nada do mundo. Eu só conhecia aquilo. Minha sala de aula, aqueles colegas, aqueles professores, o caminho que eu fazia todo dia pra chegar até lá e voltar de lá. Lá, eu era especial, recebia elogios dos meus professores e da reunião de pais minha mãe voltava orgulhosa, porque a professora havia falado de mim. Como era fácil, naquela época. Por que raios essa vontade de não ser areia numa infinidade de areias? Por que não se contentar? E a verdade é que eu queria ser especial. E eu estou no palco. E sobem as cortinas. E a plateia parece gritar “fraude, fraude, fraude”.

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Com vocês, Jout Jout!

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Acho que de fato jornalista gosta de compartilhar coisas que descobre por aí haha. Faz pouco mais de um mês que eu não faço outra coisa senão estar obcecada em um canal específico no youtube: o da Jout Jout. O melhor de tudo vocês não perdem por esperar. A Jout Jout é brasileira, lá de Niterói, faz vídeos curtinhos mas MUITO divertidos. Mas de um jeito legal, natural, despretensioso, não tem nada de roteiro, de cenário chique, nada de nada. Só ela, uma câmera, Caio atrás dessa câmera de vez em quando (é o namorado de Jout Jout, mas já já falamos dele) e opiniões. Alguns minutos valiosos dela, que na real se chama Julia, falando o que pensa sobre alguma coisa.

Por que eu amei a Jout no momento que a vi? Além da naturalidade e do sotaque – que me ganha em segundos – ela é muito real! Ela é tipo meus amigos, falando vários coisas divertidas e ainda assim que fazem muito sentido, sem ser prepotente ou gritar com você ou fazer você querer desistir de viver porque ai meu deus a vida é uma merda. Não, ela é o máximo, e a simplicidade (dos cenários, do jeito que ela fala, de tudo) é um troço que me encanta muito. Tô tão bodeada de nariz em pé e gente arrogante, que quando encontro alguém assim, gente como a gente, eu garro amor mesmo!

Tá, assistam e me contem! Mas não vão embora! Aqui embaixo tem uma entrevistinha que fiz com ela, olha que fofa!

MAS CALMA! Olha que loucura que o universo é: ontem a Jout Jout publicou o vídeo mais incrível da história do canal dela. E hoje todo mundo começou a conhecê-la, fiquei toda orgulhosa, haha!

Diz aí, ela não é maravilhosa? Se inscrevam!

Agora vem ler a entrevista que fiz com amor:

Jout Jout: Ask me anything!
Noelle: Por que Jout Jout?
Jout Jout: Eu trabalhava num lugar que tinha outra Julia. Ela era Ju G e eu era Ju T. Ai Caio começou a me chamar de JuT JuT – e ele fala o T no final das palavras! E aí começou a escrever isso em cartinhas, desse jeito: jout jout. Eu explico no vídeo Esclarecimentos.

Noelle: Por que criar o canal? Cê assistia algum e gostava ou foi algo meio da sua cabeça e pronto?
Jout Jout: Eu sou apaixonada por vlogs há tempos, mas sempre gostei mais dos gringos. Lá fora eles já entenderam melhor como fazer as coisas, eu acho. É uma cultura super difundida. Os youtubers são celebridades maiores que os hollywoodianos para alguns jovens. E eles fazem de um jeito super natural que eu amo.
Acho que foi esse o motivo master. O que eu via por aqui era sempre meio forçado, ensaiado, atuado demais. e eu queria algo que fosse o mais natural e espontâneo possível. Aí meio que decidi fazer do jeito que eu queria que existisse. E as pessoas estão respondendo muito bem a toda essa naturalidade. Descobri que não era só eu que procurava isso…
Jout Jout: Quer referencias dos que eu acompanho?
Noelle: Quero sim!
Jout Joutjenna marblesgrace helbighanna hartgermanmiranda sings, e por aí vai

Noelle: Dai você fez seu canal e como era no começo?
Jout Jout: No começo era igual a agora, eu acho… Eu era um pouco mais travada. Agora tô soltinha. Ah, e agora tem mais gente vendo. Mas a filosofia é a mesma…

Noelle: E como é pra gravar? É sempre o Caio (o namorado dela)? Quem edita?
Jout Jout: Quando caio está junto ele me ajuda na gravação, prepara a setagem da camera e tudo mais. A edição é por minha conta

Noelle: E os temas?
Jout Jout: escolho uns 5 minutos antes de gravar. Eu vou olhando as coisas em volta e falo “ah, vamos falar aqui sobre essa árvore?”. Não tem um motivo pra ser assim tão não planejado. Só é. Eu tenho uns temas na manga, só que eu só consigo falar sobre uma coisa quando eu REALMENTE quero falar sobre essa coisa. Senão fica forçado e duro. Não consigo planejar um vídeo pra daqui a três semanas. Isso é impensável pra mim. Tem que ser o que eu pensei e senti ali na hora, sabe?
Noelle: Aham!
Jout Jout: Por isso não faço roteiros. Senão eu tenho que falar minhas falas
e isso seria desastroso.

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Noelle: E você imaginou que as pessoas iam curtir tanto?
Jout Jout: Eu nem pensei nessa parte
Noelle: Porque eu sempre vejo comentários muito legais, gente que te descobriu e te amou!
Jout Jout: Na verdade a ideia era eu conseguir botar alguma coisa na rua sem suar frio, porque pessoas poderiam ver e julgar. Todas as minhas energias foram direcionadas para conseguir apertar o botão “publicar”. O que vinha depois era consequência, mas não o propósito final. Mas tô MUITO FELIZ com o resultado. Tenho uma nova família agora! Uma família virtual!

Noelle: E qual a coisa mais estranha que já te falaram ou comentaram?
Jout Jout: Um sujeito já falou que queria chupar meu pé todinho Foi um baque na hora!

Noelle: E já teve comentário de hater ou só amorzinho?
Jout Jout: Só amorzinho por enquanto. Eu já soube de pessoas que não gostam dos vídeos, mas ninguém veio fazer comentários de ódio ainda. Quem não gosta simplesmente não posta nada, do jeito que deveria ser sempre.

Noelle: E na vida real? As pessoas comentam dos vídeos, param na rua? \
Jout Jout: Param muitooooo! Todas as ultimas viagens que fiz fui reconhecida, até em Pirenópolis! Pedem pra tirar foto e tudo.

Noelle: E as pessoas do seu convívio, veem os vídeos?
Jout Jout: Poucos comentam. Os mais engajados são os familiares virtuais. Meus amigos da vida real veem, curtem e tudo mais, mas conversamos mais sobre outros assuntos… Não é o assunto da mesa, sabe? E é bom que seja assim. Senão eu fico nessa bolha jout joutiana o dia inteiro

Noelle: E caio, o que ela acha disso tudo? um dia você pretende que ele apareça?
Jout Jout: Caio acha o máximo. Ele lida muito bem. Não fica deslumbrado e ao mesmo tempo fica todo orgulhoso. Acompanha tudo, e principalmente: faz todo um acompanhamento psicológico muito necessário. Porque eu sou ótima pra enlouquecer de vez em quando. E ele me conforta e me bota no trilho toda vez. Acho que se ele aparecer perde a graça. Tem muita gente que stalkea ele, coitado. E tem muita gente também que pede pra eu não mostrar ele nunca pelo amor de deus. Pra não perder esse caio do imaginário… Esse mistério todo foi super sem querer e acabou criando mó frisson.

Noelle: Qual seu signo?
Jout Jout: Peixes, ascendente em áries
Noelle: Gente! Sou sagitário e ascendente em peixes. Essa mistura de elementos é muito doida
Jout Jout: hahaha muito doida! Por dentro uma flor, por fora uma louca descontrolada

Noelle: O primeiro vídeo que eu vi seu era o “sem caô”, uma coisa assim! E eu achei o máximo você defendendo as minas e tal. Você se considera feminista, tem essa coisa do girl power na sua vida?
Jout Jout: eu sou nada feminista. Eu sou nada nada na verdade, sem bandeiras, sem nada. Eu tenho opiniões para diferentes assuntos, mas sem um título em cima da minha cabeça. Só opiniões
Noelle: E qual sua opinião sobre as minas estarem indo atrás das coisas, falando o que pensam e tal?
Jout Jout: Acho a coisa mais linda do mundo. Gosto de pessoas lutando pelas coisas. Mulheres, homens, todo mundo. Quando tem criança lutando no meio eu choro. Toda vez

Noelle: Vi num vídeo que vc falava que não faria stand up… O que você acha do humor no Brasil hoje?
Jout Jout: Eu acho ótimo tudo que é natural. Gosto de coisas naturais sempre. Tipo paulo gustavo. O meu problema é que sou extremamente tímida e ia derreter no palco.

Noelle: e na sua vida fora da internet, o que você faz?
Jout Jout: formada em jornalismo, não sei porque. Faço uns freelas pra alimentar meus cachorros, e faço vídeos, e vou a praia, e assisto netflix, e fico horas conversando com a família virtual. Os freelas que eu faço existem por causa do canal. Faço edição de vídeos!

Noelle: Quantas primaverinhas você tem?
Jout Jout: 23. 24 daqui a duas semanas

Noelle: Você pensa no futuro do canal? Coisas que você quer fazer ou não muito?
Jout Jout: As pessoas confiam em mim. e isso é uma loucura porque elas não me conhecem na vida real. o fato delas virem até mim e contarem coisas secretas é uma prova de amor que me faz dormir sorrindo. O futuro do canal pra mim é continuar como ele é.. e se ele puder alimentar meus cachorros, melhor ainda

Tá, pensa rápido.
Margot?
Meu amor eterno ou presentinho dos céus
Uva passas?
Às vezes não consigo tirar todas
Calor?
Uma realidade
Twitter?
Não sei mexer
Uma saudade?
Infância
Meninos?
uns amores
uns queridos
Youtube?
My boss
Copo metade cheio ou metade vazio?
Depende se eu estou de tpm
Panetone ou chocotone?
Brigadeiro
Se jout jout não fosse jout jout, quem gostaria de ser?
Beyoncé
Taylor swift ou katy perry?
Taylor
Chico ou Caetano?
Os dois com gelatina em volta
Qualidade?
Esquisita
Defeito (e não pode ser perfeccionismo)?
Impaciente DEMAIS
Beatle preferido?
Todos com gelatina em cima
Sonho?
Velhice em Canela com chocolate quente e lareira. Ou ter a vida que eu levo só que com auto-dinheiro
Poder de super-herói que você queria ter?
Mão elástica
Frank underwood ou Claire underwood?
Claire!!!!! So classy
Romero Britto?
Esperto
Uma série que foi uma perda de tempo?
Uma que tem o harry potter e mad man contracenando! WTF??? (chama “Diário de Um Jovem Médico)

Jout Jout, muito obrigada! Por existir, haha, e pela entrevista! E leitoras e leitores, amem a Jout Jout também. Vocês não vão se arrepender :)

coracao

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“Me fale sobre seu vestido?” #AskHerMore

ask-her-more2“Não pergunte só sobre o vestido. Pergunte sobre a mulher que está usando-o”

Hoje tem Oscar! E apesar da tristeza com o cenário desse ano (falei disso aqui), com todos os filmes indicados ao Melhor Filme serem sobre homens, nenhuma mulher indicada em categoria importante além das de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, a falta de representatividade negra (assisti Selma e sofri muito pelo ator principal e pela diretora, ambos negros, não terem sido indicados em suas respectivas categorias), talvez tenhamos uma luz no fim do túnel!

Escrevi sobre isso lá pro Petiscos, mas achei tão legal que queria trazer pro blog também! É o movimento #AskHerMore, algo como “Pergunte mais a ela”, que sugere que ao invés das mulheres só receberem perguntas toscas dos entrevistadores, nada além de “o que você está vestindo”, “como perdeu o peso da gravidez (affeeee)”, “qual sua rotina pré-Oscar de beleza” e essas coisas que a gente até gosta de saber, mas que sim, poderiam ser um pedacinho só da entrevista, não ela toda, eles se esforcem mais e perguntem coisas a respeito do trabalho, do papel, de como foi fazer o filme.

A Amy Poehler, que apresentou o Globo de Ouro com a Tina Fey, tem um site/projeto super legal chamado Smart Girls (o slogan é ‘mude o mundo sendo você mesma’), e na noite do Globo de Ouro eles twitaram a hashtag, que foi criado pelo Representation Project.

ask-her-more “O #TapeteVermelho começou e nós queremos que a mídia #AskHerMore! Vamos além do ‘quem você está vestindo?’ e fazer perguntas melhores!”

 Eu achei a ideia sensacional, e realmente espero que na noite de hoje sejam feitas perguntas diferentes para as atrizes. Elas são muito mais do que um corpinho em um vestido. Elas são mulheres incríveis, com um monte de bagagem, indicadas ao Oscar, que passaram por diversas experiências, e você só quer saber do vestido? Me desculpa, mas não.

E a coisa fica ainda pior quando ao lado um ator/diretor/roteirista recebe perguntas muito mais interessantes, a respeito do trabalho. Nunca perguntam a um cara como ele conciliar sua carreira com a sua vida pessoal. Por que? Porque o senso comum diz que é a mulher que sofre com isso, que tem que cuidar da família ao mesmo tempo que faz um filme. Mas não. Não, e não.

tumblr_mzn18te0jZ1rpubqio1_250 “Você faz isso com os caras?”

O mais legal é que as atrizes não aguentam mais, também. Elas estão revidando, e eu acho isso maravilhoso. Eu sou jornalista, e já trabalhei em lugares onde o que era esperado de mim era que eu fizesse perguntas inteligentes, interessantes, sobre a carreira, etc, e em lugares onde eles queriam que eu perguntasse sobre dieta, vida pessoal, estilista preferido… E é sempre constrangedor ficar nesse papel. Você vê que a pessoa não aguenta mais aquele tipo de pergunta, que ela adoraria que você perguntasse sobre algo mais substancial. Mas quando você vem com uma pergunta “fora da caixinha”, é a glória, haha! É uma conquista ouvir a pessoa dizendo “essa é uma ótima pergunta!”. Ou seja, é um ganha-ganha, no final das contas. Uma entrevistada feliz falando algo diferente, e uma repórter realizada ;)

Eu sempre acompanho o tapete vermelho e faço comentários lá no twitter e no facebook. Esse ano, inspirada por essa campanha, vou fazer de um jeito diferente. Espero que vocês gostem, e me acompanhem por lá ;D

Bisous e até mais! #AskHerMore

coracao

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Precisamos falar sobre ’50 tons de cinza’ (e sexo)

fifty-shades-of-grey

Aconteceu: eu fui ver ’50 tons’. A verdade é que eu sempre tive um bode com essa história, não via muita graça numa fanfic de Crepúsculo, já que nem o original havia me seduzido (eu li até uma parte do segundo e desisti, a Bela me irritou profundamente), e achava um exagero a galera endeusando mais um romance água com açúcar, onde um cara exerce o papel de príncipe-salvador-sentido-da-vida na história de uma mulher desinteressante e desinteressada.

O tempo passou e agora, com o lançamento do filme ficando cada vez mais próximo, a Lívia (@aquelalivia, do Clube do Livro Erótico e minha amiga da faculdade!) começou a fazer uma leitura comentada do livro no seu twitter. Todo dia à noite ela comentava um pedaço. Foi aí que resolvi prestar atenção de novo nessa história. Não, eu não fui fisgada, haha. Na verdade eu fiquei preocupada, assim como a Lívia, sobre como aquele relacionamento central era tratado no livro.

Eu ainda não li o livro, mas talvez eu leia, pra gente poder falar especificamente do que acontece nele (não me sinto confortável em falar de alguma coisa que eu não conheço, né), mas a Lívia fez um vídeo, junto com a Isadora, especificamente sobre isso:

… Mas eu vi o filme. Fui ontem com Lucas e Tamara. Amigues, que experiência foi aquela?! Saí tão desconcertada que gostaria de discutir alguns pontos com vocês. Me acompanhem, por favor?

dakota_johnson

ANASTASIA

No começo, ela me cativou. Achei a garota com atitude, voz, vontade própria, certo humor… Mas depois, acho que o roteiro realmente não dava muita abertura, ela foi ficando cada vez mais insossa, mais choramingona, e de uma menina que diz “ainda posso exercer meu livre arbítrio, não?” ela passou a ser uma que abandona toda a sua personalidade, sua rotina, em nome de um cara que não é o que ela quer, mas que ela tem a plena convicção que vai mudar. Por que raios ainda querem nos fazer acreditar que um cara “errado” só precisa de uma mocinha pra salvá-lo? Não é assim que funciona. E no final muitas vezes a mocinha acaba extremamente magoada e frustrada porque “não conseguiu” mudar o tal homem da sua vida. Não sei por quê, haha, mas tenho a impressão que no fim dessa trilogia ela acaba por “mudar” o Mr. Grey. E se sim, que grande desserviço aos relacionamentos verdadeiros, hein.

Além disso, me dói ver uma personagem se curvar TANTO aos mandos e desmandos do parceiro. Relacionamentos saudáveis e felizes envolvem que o outro ceda. Mas é uma troca, é uma relação de respeito e de igualdade. Não de mestre e submisso. Isso pode valer pra dentro do quarto, na hora do sexo (se for da vontade dos DOIS), mas na vida real não tem nada de saudável. Ou mágico. Ou perfeito. Ou ainda, ideal.

Tem um momento em que Anastasia diz à família do Grey que vai visitar a mãe. Ele fica putíssimo porque ela ainda não tinha lhe dito e ele COLOCA ELA NO OMBRO E SEGURA PELAS PERNAS. Tipo um homem das cavernas, gente! Em outro momento, ele diz que ela não pode beber. Em outro, fica com ciúmes dos amigos dela. É uma relação tão obsessiva, tão não-saudável. Ela não pode em hipótese nenhuma ter uma vida. Ela tem que ter a vida que ele quer (com os presentes que ele compra, com as roupas que ele manda o motorista comprar, comendo o que ele acha que deve, indo à médica que ele escolhe…).

grey e anastasia

O MITO DO PRÍNCIPE ENCANTADO

Ele é bonito, bem sucedido, rico pra caramba, teve um monte de mulheres antes, mas só se apaixona, claro, por ela. Uma virgem que esteve esperando por ele o tempo todo (nada contra virgens, só contra o conceito social de que uma mulher virgem é mais virtuosa, mais especial, tem mais valor  – pra mim isso se baseia em ações, caráter, valores, não se a mulher já fez sexo ou não), inclusive diz isso num diálogo vergonhosíssimo – mas já vamos chegar lá – quando conta que é virgem, ele pergunta “Onde você estava?”  e ela “Esperando”. Ai! gente! Ele é também o cara que te busca de helicóptero (?!?!) pra um encontro, te dá um computador novo, um carro novo, te compra roupas novas e te oferece um quarto “de princesa” em sua casa.

Fala “sujo” (hahaha). Te joga na cama. Te carrega no colo tipo aquela cena do noivo e da noiva na noite de núpcias (e os clichês vão se acumulando). Ele te liga o dia todo, quer saber onde você tá, com quem você tá, o que vai fazer, com quem vai fazer. Mas ele não conversa. Não deixa que encoste nele. Não vai ao cinema. Não namora.  Tem problemas com relacionamento e intimidade. Não se abre. É meio problemático. Seu gosto peculiar no sexo tem a ver com um trauma de infância (dica: fetiches não são doenças, não derivam de um trauma não, viu gente). Pronto. Ta aí seu Christian Grey. O suposto “homem perfeito”. O cara que “todas as mulheres querem”.

Vi um vídeo da Cinthya Rachel sobre ’50 tons’ e ela falava: “Isso não é amor. Isso é cilada”. E eu não tenho como concordar mais. Esse homem não é perfeito. Ele é cilada. Na minha opinião, amor é quando um homem divide sua vida com você. Divide com você seus medos, seus sonhos, o que gosta, o que não gosta. Um homem que compartilha. Que quer construir algo ao seu lado, com você (e sua personalidade, não uma versão que ele quer da sua personalidade). Todo o resto, quando isso não existe, é só uma tentativa de suprir o amor de verdade.

anastasia

O SEXO

Até pouco tempo atrás, a gente só se preocupava com a visão idealizada de amor que Hollywood e a indústria cultural vendia como verdadeira pra gente (e pros adolescentes, pras crianças, etc). Agora a gente tem uma nova categoria: o sexo idealizado. E aqui ele é ainda pior que o sexo do filme pornô (também exemplo do sexo inverossímil), porque ele é de massa. Todo mundo vai ver, não tem tabu, não tem salinha com cortina, não tem medo de alguém chegar de repente em casa e te pegar no flagra. As pessoas tão indo ver esse filme com a família, gente. E claro que o problema não é que “ai, é muito pesado”. Se tem uma coisa que eu não sou, é moralista. Acho até legal sexo ser menos tabu, pra variar um pouco.

Mas o problema é que QUE SEXO É AQUELE? É tudo de mentira. Tudo esterelizado, muito limpo, muito ritmado, sincronizado, com começo, meio e fim. E ele encosta nela e ela geme. Ele encosta de novo, ela sente mais prazer. Mais uma encostadinha, mais uma onda de prazer que ela não se aguenta. E isso tudo na primeira vez da mocinha. Parece mágica, gente. Parece que é tipo apertar um botãozinho que pronto, em alguns minutinhos, se você manusear aqui e ali, a mulher vai ter um orgasmo. Gente, para! Isso é sexo de conto de fadas. A gente precisa mesmo de um filme mostrando pras mulheres que ‘nossa, olha só esse homem, ele sim sabe dar prazer a uma mulher’, sendo que aquilo não existe? Tem uma pesquisa que diz que 70% das mulheres já fingiu um orgasmo. Claro que já, porque mulheres ainda têm vergonha de se conhecerem e faltam homens dispostos a explorarem (isso num relacionamento hetero, o foco aqui por causa do tema do filme). E porque o povo fica achando que sexo é isso que mostram nos filmes. Resultando em mulheres frustradas – que muitas vezes foram ensinadas que não devem gostar de sexo – e homens acomodados.

O sexo retratado em ’50 tons’ é tão falso quanto as frases “picantes” que o Christian Grey solta (aquela do ‘eu não faço amor, eu fodo – forte’, é de querer morrer de tão ruim), sem nenhuma convicção, sem nenhuma paixão, sem nenhuma verdade, e as mordidas no lábio inferior que a Ana dá toda vez que ela está ‘excitada’ (a frase que merece um prêmio é quando ela morde o lábio e ele diz ‘eu gostaria de morder esse lábio’ com a sensualidade de um bisturi numa mesa de cirurgia). Eu e meus amigos rimos muito, porque é tão absurdo, que só nos restou rir. Ah, e o sadomasoquismo? Não existe, né. Aquilo não é sadomasoquismo (“A História de O” é sadomasoquista pra valer, por exemplo). São brincadeirinhas eróticas. Uma corda aqui, um chicotinho de leve acolá. Quando ele bate mesmo nela, depois que ela pede, é que ela não gosta. Mas o roteiro é tão mal amarrado, tão sem pé nem cabeça, que você fica se perguntando o que foi que aconteceu? Como fomos parar ali?

E tem outra coisa: Christian quer sexo. Anastasia quer amor. Claro que ele vai se apaixonar por ela, isso a gente já sabe. Mas vale lembrar que sexo não necessariamente está relacionado com amor. Pode ser casual, pode ser sem sentimento (e pode ser com sentimento também, claro), mas ficam perpetuando essa ideia de que uma coisa tem que estar relacionada a outra. Ou que ‘mulher só faz sexo se está apaixonada’. E essa outra ideia, de novo, de que o cara que gosta de farrear por aí e sair com várias mulheres só o faz enquanto não encontrar a… mulher certa. Vamos mudar o disco? Ser mais progressistas, mais atuais, mais 2015, mais pró-mulher-com-desejos-e-caras-não-babacas?

Meu grande problema com esse filme é a perpetuação de estereótipos que em pleno 2015 deviam estar se extinguindo, fazendo cada vez menos sentindo, mas eles voltam, com força total, pra deixar tudo mais difícil, de novo. Não precisamos de mais garotas crescendo achando que precisam ser submissas a alguém, que precisam ser “puras” (se a mina escolhe ser virgem ou se escolhe não ser, isso não deveria ser medida de valor sobre ela), que precisam ser insossas e sem muita atitude, caso contrário vão assustar os homens.
Não precisamos de mais mulheres achando que existe um tipo de cara ideal. Um príncipe encantado que vai te salvar da sua própria insignificância. Que vai trazer sentido pra sua vida. A única pessoa capaz disso somos nós mesmas. Nós é que somos nossas próprias heróinas. Sujeitas de nossa própria história. Chega desse machismo de que a mulher ideal é santa na rua e vadia na cama – com o namorado/marido, claro. E de que o cara ideal é galinhão, malvadão, babacão, que vai mudar com a mulher ‘certa’. Não dá mais, né gente?

Amor, amor de verdade, faz mais feliz do que triste. Machuca muito menos do que alegra. Tem mais sorriso do que choro. Mais risada do que grito. O contrário disso não é amor. É um relacionamento doentio.

E por último, não precisamos de sexo idealizado. Sexo tem cheiro, tem calor, tem suor, tem corpos de todos os jeitos, de todos os tamanhos, com pelos e sem pelos, com troca de fluídos, com barulho, com jeitinho, com carinho ou mais bruto mesmo, com constrangimento às vezes sim, às vezes não, e que pode ser muito bom, mas pode não ser também. É um ponto positivo quando as mulheres leem algo esse tipo de livro e se empoderam a ponto de buscar novas formas de prazer. Vira um problema quando o que era incentivo vira modelo ideal. E eu acho que a vida real é muito mais legal do que os filmes. Simplesmente porque ela existe.

Bisous e até mais ;)

coracao

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