Lookbook Maje e uma (pequena) reflexão sobre a moda brasileira

Maje, lookbook fall 2010-2011

ps: clicando nas fotos, elas aumentam!

Vermelho, ao lado do marinho, é minha cor preferida. E achei todas essas maneiras de usar a cor absolutamente apaixonantes. Até a meia-calça, que eu tenho e usei apenas algumas vezes, se torna mais usável e menos ‘fantasia’. O look da calça de couro vermelha é meu preferido de todo o lookbook. É tão cool&chic, que não sei nem descrever.

Tenho ressalvas com metálicos, mas olha que jeitos legais de usar! Em nenhuma das produções a modelo parece uma louca da boate, mas uma menina muito moderninha e chic. Fiquei impressionada.

(ps chato: calça de couro e essas calças metálicas, infelizmente, só ficam bem nas magrinhas e altas :~)

Tô com cada vez mais vontade de usar visuais assim, meio masculinos, meio Annie Hall. Mas para esse tipo de produção é preciso de roupas cortadas impecavelmente, não dá pra ser de fast-fashion. Alfaiataria é coisa séria! (haha)

O couro tá tão, mas tão nas paradas que eu já tô enjoando dele. Kate Moss usa couro há tantos anos, e só agora o pessoal resolveu falar que é o último grito da moda. Acho que o mais legal é tentar montar looks não óbvios. No último Fashion Rio, por exemplo, vimos um batalhão de meninas de vestidinhos leves e jaqueta de couro. Embora isso parece não óbvio a primeira vista, já é uma combinação que se tornou comum. Então temos que exercitar a criatividade, e colocar o couro em looks diferentes!

Aqui, várias ideias legais para os dias friozinhos. Meia cinza, e não preta, bota ankle por cima da calça, e não aquela que a gente já cansou de ver nas ruas, parka pesadona por cima de vestido levinho.

AMO oncinha, amo, amo. Mas discordo (haha) do primeiro look, porque na minha cabecinha, só uma pessoa muito evoluída consegue usar transparência e oncinha sem ficar over. Então, um ou outro. Oncinha com camel (essa cor bege mais escura) é maravilhosa, beijos.

Pluma é tipo paetê, pra mim. Tem gente que acha que só pode usar de noite, tem gente que acha muito ousado usar a qualquer hora, e tem gente que usar sempre. Eu sou do último tipo. Sou da opinião que é o toque extra-mágico para as produções do dia-a-dia. E usando com parcimônia (ou seja, deixe só aquela peça chamar atenção), traz muito mais interessância.

A mulher por trás da Maje é a parisiense Judith Milgrom, que a criou em 2000. O nome pode ser soar completamente estranho para vocês (soou pra mim da primeira vez que li, também), mas é sabido que nas ruas de Paris as criações de Madame Milgrom, que nasceu no Marrocos, fazem sucesso.

O motivo, pelo que andei pesquisando, é que lá se encontram peças atemporais, com um ou outro toque ‘trendy’. E as parisienses, que são mais chegadas em um look mais ‘effortless’, compram, e muito, a ideia.

O conceito da marca é fazer peças para todos os momentos do dia, criando hype sem perder a alma, oferecer uma visão mais feminina e reintegrar o vestido como uma peça indispensável no guarda-roupa.

Além disso, Milgrom propõe, como uma das coisas mais importantes de sua marca, oferecer uma linha de roupas entre os inacessíveis designers e as impessoais H&M e Zara. Os preços, entretanto, não são acessíveis a todos, mas dizem as boas línguas que vale cada centavo.

Particularmente, acho ótimo quando um designer leva a sério sua proposta de oferecer moda a um preço acessível ao seu público.

Aí, pensando nisso, me veio o panorama do Brasil.

Aqui sofremos muito com isso, especialmente, pois os designers parecem se esquecer de quem é seu público.

Como assim? Quando perguntamos ao estilista quem é a mulher (ou o homem) que veste sua marca, a resposta é (quase) sempre a mesma: Uma mulher sofisticada (e sofisticada não quer dizer rica, no real significado do palavra), que sabe reconhecer a qualidade e o design de uma peça.

E eu me pergunto: Há tantas mulheres (e homens) com essas características no Brasil? Eu digo, com dinheiro o suficiente pra comprar todas as coleções dos designers brasileiros?

Sinceramente, uma grande parcela desse público prefere viajar e gastar seu dinheiro numa peça importada, do que gastar quase o mesmo tanto numa peça brasileira, muitas vezes com qualidade duvidosa.

Não é questão de subestimar a moda brasileira, nada disso.

Uma das coisas, chatas, de se pensar, é que boa parte dos consumidores ainda tem uma visão colonizada de moda, e achando, costumeiramente, que tudo o que é de fora é melhor do que o produto nacional. Em alguns casos pode ser, em outros não (Exemplo rápido: Muita gente acha legal comprar roupas na Forever 21 _marca de fast fashion americana com qualidade baixa_, mas jamais pisaria numa Renner ou C&A _que tem um custo benefício ótimo, inclusive na qualidade).

Mas os estilistas, ao colocarem os preços nas alturas, pensando atrair um público seleto (o seu público imaginário) acabam por não atrair ninguém. E aí vemos praticamente a coleção toda na liquidação, ou no bazar, sendo vendida a menos da metade do preço.

A questão do preço tem seus porquês. O custo da mão de obra (difícil achar mão de obra qualificada, e quando se acha, o salário é alto _vide modelistas, que estão em falta no mercado) e da produção (os impostos no Brasil são altíssimos, há um mercado restrito de tecidos no País, aí tem que importar, e paga-se ainda mais caro). Mas ainda assim não justificam os preços altos.

Além disso, é conhecida de muitos consumidores de moda brasileira, que a qualidade do produto comprado aqui não condiz com o preço que se paga.

E aí, você, que já não tem muito dinheiro, resolve economizar para comprar uma peça específica, que você tem desejado desde o desfile. Compra, usa, ama, fica feliz, suja e lava.

E pronto, sua roupa encolhe, enche de bolinha, rasga nas costuras, desbota.

Por outro lado, muitas grifes francesas ou italianas são conhecidas pela qualidade impecável e duradoura. Muitas das roupas que você compra numa dessas maisons muito provavelmente vai poder ser usada pelas gerações futuras.

A qualidade do produto brasileiro envolve fatores como, de novo, a falta de mão de obra qualificada e os materiais disponíveis. Se na França existem ateliês (?) com artesãos especializados, que aprenderam o ofício na família, no Brasil a profissão de costureira não é valorizada  (no sentido de ser subjugada, e poucas mulheres quererem ser costureiras), e há pouquíssimas bem qualificadas (e essas são tidas como um tesouro pelos estilistas).

E em parte a culpa é nossa também. Pergunta: Quantas vezes, antes de lavar uma roupa, você olhou na etiqueta as instruções?

Não há o hábito no Brasil de se lavar uma roupa de acordo com as especificações, o que ajuda a diminuir a vida útil daquela peça. Além disso, nossas máquinas são agressivas com tecidos mais sofisticados, e nossos produtos de limpeza muito fortes.

Mas mais uma vez, esses fatores não justificam o preço alto, pois, no final das contas, há muitas marcas que colocam seus preços lá no alto para “selecionar” o público, achando que vai atingir apenas compradores da classe AA. E a pior parte, é que eles imaginam que tornar o preço mais acessível vai tornar a marca mais popular, o que seria ruim para a marca, na visão deles.

Uó.

Como lidar com isso?

É uma coisa que eu penso muito, e que, em minha opinião, de alguém que não entende muito dos negócios da moda, entrava todo o desenvolvimento da moda brasileira.

Antes de tudo, a moda tem que se satisfazer ao seu país, ao seu público, ter qualidade, design. Tem que se comprometer com seus clientes, tem que levar nas araras uma roupa boa, que vai durar, e que ao mesmo tempo, não vai custar uma quantia astronômica.

Eu realmente fico doidinha com essas coisas.

PS: Agradeço ao Luigi (@luigi_torre) por ter me dado uma aula de mercado de moda brasileira :)

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12 Comentários

Arquivado em Moda

12 Respostas para “Lookbook Maje e uma (pequena) reflexão sobre a moda brasileira

  1. Blog

    Ai, eu ameeeeei muito! Observações valiosas pra todo mundo que quer trabalhar com moda! <3

    • Stephanie Noelle

      Que bom que gostou, Yas!
      Opinião de quem trabalha/gosta do assunto também é muito, muito importante pra mim! :D

      Mas olha, fazer essas reflexões só faz a gente ficar com mais raiva das coisas, viu >.<

      Bisou bisou

  2. Um post completo, é a verdadeira e necessária extensão da moda para a sociedade virtual. bjo

  3. David Bitencourt

    Incrível post! Um verdadeiro Manifesto da Moda Brasileira! Inteligente, informativo e chic!

    • Stephanie Noelle

      Óun, obrigada!

      Que orgulho você chamar de ‘Manifesto’, achei importante! haha

      Merci, mon amour ;*

  4. Karin Salomão

    Adorei o post. Agora tá começando a ficar jornalismo de moda, mesmo, parabéns.

    PS: eu não gosto de oncinha xP

    • Stephanie Noelle

      Uau, que elogio ótimo!

      Acho difícil, de verdade, fazer jornalismo de moda em blog. Acho que é uma coisa que exige pesquisa e conhecimento, se não fica vazio, sem sentido e o pior, não verdadeiro.

      Mas quando eu tenho tempo, e tô inspirada, realmente é uma coisa legal de se escrever!

      Obrigada, Karin!

  5. Adorei o post. São observações que me “encomodam” bastante também viu.
    Você escreve muito bem!

  6. acho que um grande problema na moda brasileira e que não se restringe à moda quando falamos de preços é que quem tem dinheiro paga muito mais caro do que a coisa em si deveria custar. por exemplo, ingressos do SWU só são vendidos por aqueles valores porque há quem pague e isso torna inacessível a quem gostaria de ver tais shows. aqui muitas vezes as pessoas acham que pagar mais é vantajoso e pronto, sem se questionar se é ou não.

    gostei muito das reflexões que você fez, té! e achei uma boniteza o lookbook (embora eu não seja amiga de metálicos e oncinhas, os itens vermelhos, os mais menininhos e os mais menininhas me agradaram bastante!

  7. Vermelho, preto/marinho e branco. A melhor cor do mundo com sua 2 BFFs. Eu usaria um armário todo assim.

    Cores metálicas. Parece que as modelos estão embaladas em papel de presente. Usaria, no máximo, naquele dia de narcisismo incontrolável, o vestidinho.

    Couro, adoro. Tenho uma jaqueta que comprei em Roma que nunca me abandona quando a temperatura cai mais do eu desejaria.

    Minha birra com oncinha, por outro lado, acabou faz apenas um ano. Comecei a usar um tímido cinto fininho, de repente ganhei uma sapatilha e hoje tenho até duas blusinhas, uma na versão normal e outra em roxo e preto.

    Achei que plumas se restringiam ao Carnaval e àquelas festas de casamentos mais moderninhas em que todo mundo ganha brindes da 25.

    E tudo o que vc disse é super verdade. Ignorância dupla dos nossos patriotas em não pisar numa loja menos cara e destruir as roupitchas na lavanderia.

    Consegui fazer um comentário tão longo quanto o post, yay! Que culpa tenho eu se seu talento desperta em mim uma vontade absurda de comentar?

  8. adorei seu post!
    ás vezes eui acho que os estilistas daqui são um pouco míopes e parecem projetar um público alvo que ainda não existe…..uma pena.

    beijins

    http://glamourzinhobasico.wordpress.com/

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