
Foto do editorial “Dans La Peau de John Galliano” (ou “Na pele de John Galliano”, em português), publicado na Vogue Paris de Dezembro/Janeiro 2006.2007, com a modelo Sasha Pivovarova, que me pareceu bastante adequado para entrar neste post.
Não vou entrar no mérito de “certo” ou “errado” sobre o caso Galliano e o antissemitismo (se você não sabe do que se trata, clique aqui e escolha sua fonte). Esse post é fruto da indignação desta que vos escreve com uma parcela da mídia _ou do mundo_ que buscou frisar em seus textos que “o mundo da moda” iria esquecer rapidamente o assunto, que “o mundinho fashion” estava buscando desculpas para o ocorrido e que “o povo da moda” estava tentando colocar panos quentes sobre o assunto, entre outras insinuações.
Não é nenhuma mentira que trabalhadores da moda ao redor do mundo escreveram e enviaram mensagens de apoio ao estilista. E não acho que isso seja ruim.
Capa da Vogue Paris de Dezembro/Janeiro 2006.2007, com Dreww Barrymore, em homenagem ao estilista John Galliano, da Dior.
O que me incomoda de verdade é ver que uma enorme parcela do mundo _e dos jornalistas_ julga a moda como preconceituosa, sendo que muitas dessas pessoas são tão ou mais preconceituosas com a própria moda e com as pessoas que trabalham com ela. Dizer que “o povo da moda” vai esquecer logo e está procurando desculpas para o fato me parece muito prepotente.
Soa para mim como “vocês da moda não dão a devida importância aos assuntos envolvendo preconceito porque vocês já são naturalmente preconceituosos, mas nós da _insira aqui assunto que o mundo inteiro julga relevante_ faríamos diferente e execraríamos em praça pública qualquer um do nosso ramo que cometesse tamanho ato falho e jamais esqueceríamos e seríamos um exemplo”.
E não, não estou dizendo que a moda não é preconceituosa ou superficial. Ela pode sim ser. Mas qualquer outro ramo também pode.

Além disso, eu entendo e me coloco como parte das pessoas que estão sendo indulgentes com John Galliano. É bastante claro para mim que quando alguém que você admira muito, seja ela seu pai ou um estilista com quem você nunca falou, comete um erro, tendemos a ser complacentes. Procuramos respostas, queremos saber por que raios a pessoa fez aquilo, por que, deus do céu, ela foi nos decepcionar. E o “tamanho” do erro (é possível mensurar decepção? Duvido) pouco importa nesse nosso julgamento cheio de emoções e variáveis.
Se eu, que nunca cheguei perto de Galliano fiquei procurando respostas para o comportamento dele, imaginem as pessoas próximas ao estilista, que trabalharam com ele, e que talvez sejam amigas íntimas, como algumas editoras de moda _que o povo adorou julgar por aí_ , devem ter se sentido?
Um exemplo simples é quando um amigo, ou pai, mãe, namorado, etc, que você admira e gosta muito, comete um erro grave. Você imediatamente corta relações, julga, sai por aí falando mal e tacando pedras, ou você fica em negação, procurando respostas, tentando entender o por quê daquilo, e às vezes, acaba perdoando? Isso pode não ser certo, nem inteligente, nem bom para nossa vida, mas é o que eu entendo que fazemos pelas pessoas que nos são caras. Damos uma segunda chance (e as vezes mais do que duas, não é não?).

E por favor, não vão entender que eu estou justificando o que ele fez. Estou “defendendo a classe”. No caso, a classe “do povo da moda”, que pode ter muita gente imbecil e preconceituosa, mas disso o mundo tá cheio e não é privilégio da nossa trupe não.
Quando se fala em outras searas do conhecimento, não existe uma forte corrente que diz que Monteiro Lobato era racista e passava idéias preconceituosas nas suas histórias? E o autor é extremamente cultuado no Brasil. O francês Louis-Ferdinand Céline era militante antissemita assumido e chegou a dizer que a política nazista de Hitler era moderada (!!!) e sua importância para a literatura européia é bastante grande, tanto que ele seria homenageado este ano pelo governo da França (e não o foi devido a protestos).
Achei um trecho de uma reportagem de 2004 da Veja (não que eu a ache uma ótima referência) que cita as relações entre escritores e os regimes totalitários, e vou colocar um trecho aqui. A íntegra se encontra aqui.
Céline é um caso extremo da conjunção de gênio artístico e abjeção moral. Mas não é o único: os totalitarismos do século passado exerceram um fascínio mórbido sobre intelectuais e artistas. O fascismo e o comunismo respondiam, de certo modo, a um ímpeto revolucionário que não é incomum entre escritores. [...] Até no Brasil, o fascismo seduziu autores como o jovem Vinicius de Moraes (que depois oscilaria para a esquerda). E não custa lembrar que o integralismo, patética versão nacional dos extremismos de direita, tinha como líder um escritor – se bem que hoje ninguém mais lê os romances e poemas de Plínio Salgado.
Na Itália, o escritor D’Annunzio e o poeta futurista Marinetti aderiram ao fascismo. E Mussolini teria um porta-voz de maior gênio: o americano Ezra Pound, um dos mais inventivos poetas do modernismo, ajudou na propaganda fascista, fazendo transmissões radiofônicas em inglês. [...] Na Alemanha, Martin Heidegger, talvez o filósofo mais influente do século XX, filiou-se ao Partido Nazista em 1933. Terminada a II Guerra Mundial, a estratégia do autor de “Ser e Tempo” para limpar seu nome foi bastante covarde: silenciou sobre o assunto.

Especificamente na moda, Naomi Campbell já foi acusada inúmeras vezes de agressão e continua fazendo seu trabalho, Gabrielle Chanel se aliou aos nazistas na época da Segunda Guerra Mundial e hoje pessoas do mundo todo a cultuam e passaram uma borracha pelo assunto. Nenhum dos dois filmes sobre ela toca nesse assunto (Esse artigo da Bravo fala sobre a omissão do tema no filme “Coco Antes de Chanel”, inclusive).
A televisão, o cinema e a música também não estão livres de pessoas com condutas obtusas. Charlie Sheen, Mel Gibson, Chris Brown e Dado Dolabella (só consigo me lembrar de exemplos masculinos, no momento) são figuras públicas talvez mais conhecidas do que o estilista da Dior, que protagonizaram episódios de agressão (às vezes mais de uma vez) contra mulheres. E eu acho isso tão grave quanto preconceito.
E eles estão aí, na ativa, trabalhando, e o mundo _tanto do meio em que eles trabalham quanto o resto_ também foi indulgente com eles.

Não é comportamento exclusivo ‘da moda’ procurar desculpas, tentar perdoar e dar uma segunda chance ao seu rebanho. Mas a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, ou no caso, no “menos importante intelectualmente”, “mais fútil”, enfim, as possibilidades são infinitas.
É fácil levantar o dedo e apontar as falhas de caráter e de julgamento dos outros. Aliás, é fácil e politicamente correto, fica bonito, dá impressão de que você é ético e moralmente superior aquele grupo.
Mas isso é só uma impressão.
ps: O restante das fotos do editorial estão abaixo.






{imagens: fgr}
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