Arquivo do mês: março 2011

What you want, baby, I got!

Para começar a semana que tem tudo para ser meio friorenta, do jeito que eu mais amo, um vídeo lindinho da coleção de inverno da Maria Garcia, marca desejo nº 01 desta que vos escreve, por dois ótimos motivos: As roupas são bonitas, com jeito de menina cute-mas-com-ousadia, e são de uma qualidade invejáveis. Falo isso porque tenho algumas peças da marca, uso exaustivamente, e elas continuam lindas!

Uma das grandes tristezas da minha vida de cobertura de semana de moda é não ter mais desfile da Maria Garcia. Olha Clô, to aqui na torcida para que você coloque essas roupas lindas de novo nas passarelas, tá? Essa coleção foi inspirada nos filmes de Wong Kar Wai (de Amor à Flor da Pele e Beijo Roubado, dois filmes ótimos e que indico super!)

O vídeo é também um lookbook, que lembra um pouco aqueles que a J.Crew faz, e que todo mundo fica babando. Eu só sinto falta da gente ver de mais pertinho a roupa, tipo o suéter listrado, é glitter? É paetê? É brinks? Só sei que me identifiquei (quem não?) com a moçoila tendo devaneios de diva da música no meio da sala. Faço isso no mínimo 3 vezes por dia, às vezes em público.

Direção de criação: Beto Guimarães (Carme) | Styling: Equipe Maria Garcia + Carme | Fotografia: Ilana Bessler | Edição: Lucas Valente | Modelo: Jessica Bronitzki (Joy) | Beleza: Daniel Lacerda

Para quem gostou, a música é “Respect”, da naturalmente diva Aretha Franklin. O título do post vem das primeiras frases que ela canta. Tem uma música que a Aretha canta com a Annie Lennox, que André tuitou dia desses, que é uma delícia, além da letra ser ótima. Chama “Sisters Are Doin’ It For Themselves“. É só dar play aqui embaixo ;)

E a Jessica Bronitzki, a modelo, é uma fofura sem fim! A conheci enquanto Luigi e Brisa fotografavam um editorial pro FFW, no último SPFW, e acabei fazendo um ‘bico’ de assistente de Brisa, ajudando a vestir e desvestir a Jéssica. Sério, uma querida, e trabalha muitíssimo bem! O editorial SPFW_DAY #2, dela com o Fabiano Goedert é um dos meus preferidos da temporada.

Pesquisando um pouquinho, achei um lookbook da GIG, com a Jéssica. O clima é aquele já amado por todas: 60’s, coque gigantesco, delineador gatinho, cenário que queríamos reproduzir em casa, fotografia vintage e vestidos tubinhos. A receita express do ‘ahh, que fofo!”. Fora que, né, como não se apaixonar pelo rosto de boneca da Jéssica? Aliás, na vida real (haha), a Jéssica tem essa cara toda, mas tem um jeito meio tomboy, que eu adoro. Ela tava usando um vestido meio comprido, largo, da Cavalera, branco e azul, e coturnos. Tava incrível!

Beijo, boa semana!

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O Galliano, o preconceito e a indulgência

Foto do editorial “Dans La Peau de John Galliano” (ou “Na pele de John Galliano”, em português), publicado na Vogue Paris de Dezembro/Janeiro 2006.2007, com a modelo Sasha Pivovarova, que me pareceu bastante adequado para entrar neste post.

Não vou entrar no mérito de “certo” ou “errado” sobre o caso Galliano e o antissemitismo (se você não sabe do que se trata, clique aqui e escolha sua fonte). Esse post é fruto da indignação desta que vos escreve com uma parcela da mídia _ou do mundo_ que buscou frisar em seus textos que “o mundo da moda” iria esquecer rapidamente o assunto, que “o mundinho fashion” estava buscando desculpas para o ocorrido e que “o povo da moda” estava tentando colocar panos quentes sobre o assunto, entre outras insinuações.

Não é nenhuma mentira que trabalhadores da moda ao redor do mundo escreveram e enviaram mensagens de apoio ao estilista. E não acho que isso seja ruim.

Capa da Vogue Paris de Dezembro/Janeiro 2006.2007, com Dreww Barrymore, em homenagem ao estilista John Galliano, da Dior.

O que me incomoda de verdade é ver que uma enorme parcela do mundo _e dos jornalistas_ julga a moda como preconceituosa, sendo que muitas dessas pessoas são tão ou mais preconceituosas com a própria moda e com as pessoas que trabalham com ela. Dizer que “o povo da moda” vai esquecer logo e está procurando desculpas para o fato me parece muito prepotente.

Soa para mim como “vocês da moda não dão a devida importância aos assuntos envolvendo preconceito porque vocês já são naturalmente preconceituosos, mas nós da _insira aqui assunto que o mundo inteiro julga relevante_ faríamos diferente e execraríamos em praça pública qualquer um do nosso ramo que cometesse tamanho ato falho e jamais esqueceríamos e seríamos um exemplo”.

E não, não estou dizendo que a moda não é preconceituosa ou superficial. Ela pode sim ser. Mas qualquer outro ramo também pode.

Além disso, eu entendo e me coloco como parte das pessoas que estão sendo indulgentes com John Galliano. É bastante claro para mim que quando alguém que você admira muito, seja ela seu pai ou um estilista com quem você nunca falou, comete um erro, tendemos a ser complacentes. Procuramos respostas, queremos saber por que raios a pessoa fez aquilo, por que, deus do céu, ela foi nos decepcionar. E o “tamanho” do erro (é possível mensurar decepção? Duvido) pouco importa nesse nosso julgamento cheio de emoções e variáveis.

Se eu, que nunca cheguei perto de Galliano fiquei procurando respostas para o comportamento dele, imaginem as pessoas próximas ao estilista, que trabalharam com ele, e que talvez sejam amigas íntimas, como algumas editoras de moda _que o povo adorou julgar por aí_ , devem ter se sentido?

Um exemplo simples é quando um amigo, ou pai, mãe, namorado, etc, que você admira e gosta muito, comete um erro grave. Você imediatamente corta relações, julga, sai por aí falando mal e tacando pedras, ou você fica em negação, procurando respostas, tentando entender o por quê daquilo, e às vezes, acaba perdoando? Isso pode não ser certo, nem inteligente, nem bom para nossa vida, mas é o que eu entendo que fazemos pelas pessoas que nos são caras. Damos uma segunda chance (e as vezes mais do que duas, não é não?).

E por favor, não vão entender que eu estou justificando o que ele fez. Estou “defendendo a classe”. No caso, a classe “do povo da moda”, que pode ter muita gente imbecil e preconceituosa, mas disso o mundo tá cheio e não é privilégio da nossa trupe não.

Quando se fala em outras searas do conhecimento, não existe uma forte corrente que diz que Monteiro Lobato era racista e passava idéias preconceituosas nas suas histórias? E o autor é extremamente cultuado no Brasil. O francês Louis-Ferdinand Céline era militante antissemita assumido e chegou a dizer que a política nazista de Hitler era moderada (!!!) e sua importância para a literatura européia é bastante grande, tanto que ele seria homenageado este ano pelo governo da França (e não o foi devido a protestos).

Achei um trecho de uma reportagem de 2004 da Veja (não que eu a ache uma ótima referência) que cita as relações entre escritores e os regimes totalitários, e vou colocar um trecho aqui. A íntegra se encontra aqui.

Céline é um caso extremo da conjunção de gênio artístico e abjeção moral. Mas não é o único: os totalitarismos do século passado exerceram um fascínio mórbido sobre intelectuais e artistas. O fascismo e o comunismo respondiam, de certo modo, a um ímpeto revolucionário que não é incomum entre escritores. [...] Até no Brasil, o fascismo seduziu autores como o jovem Vinicius de Moraes (que depois oscilaria para a esquerda). E não custa lembrar que o integralismo, patética versão nacional dos extremismos de direita, tinha como líder um escritor – se bem que hoje ninguém mais lê os romances e poemas de Plínio Salgado.

Na Itália, o escritor D’Annunzio e o poeta futurista Marinetti aderiram ao fascismo. E Mussolini teria um porta-voz de maior gênio: o americano Ezra Pound, um dos mais inventivos poetas do modernismo, ajudou na propaganda fascista, fazendo transmissões radiofônicas em inglês. [...] Na Alemanha, Martin Heidegger, talvez o filósofo mais influente do século XX, filiou-se ao Partido Nazista em 1933. Terminada a II Guerra Mundial, a estratégia do autor de “Ser e Tempo” para limpar seu nome foi bastante covarde: silenciou sobre o assunto.

Especificamente na moda, Naomi Campbell já foi acusada inúmeras vezes de agressão e continua fazendo seu trabalho, Gabrielle Chanel se aliou aos nazistas na época da Segunda Guerra Mundial e hoje pessoas do mundo todo a cultuam e passaram uma borracha pelo assunto. Nenhum dos dois filmes sobre ela toca nesse assunto (Esse artigo da Bravo fala sobre a omissão do tema no filme “Coco Antes de Chanel”, inclusive).

A televisão, o cinema e a música também não estão livres de pessoas com condutas obtusas. Charlie Sheen, Mel Gibson, Chris Brown e Dado Dolabella (só consigo me lembrar de exemplos masculinos, no momento) são figuras públicas talvez mais conhecidas do que o estilista da Dior, que protagonizaram episódios de agressão (às vezes mais de uma vez) contra mulheres. E eu acho isso tão grave quanto preconceito.

E eles estão aí, na ativa, trabalhando, e o mundo _tanto do meio em que eles trabalham quanto o resto_ também foi indulgente com eles.

Não é comportamento exclusivo ‘da moda’ procurar desculpas, tentar perdoar e dar uma segunda chance ao seu rebanho. Mas a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, ou no caso, no “menos importante intelectualmente”, “mais fútil”, enfim, as possibilidades são infinitas.

É fácil levantar o dedo e apontar as falhas de caráter e de julgamento dos outros. Aliás, é fácil e politicamente correto, fica bonito, dá impressão de que você é ético e moralmente superior aquele grupo.

Mas isso é só uma impressão.

ps: O restante das fotos do editorial estão abaixo.

{imagens: fgr}

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