A maioria dos meus amigos não são “da moda”. São pessoas que estudam e trabalham com outras coisas, tipo Engenharia, Administração, Direito, essas profissões que costumam direcionar pra Moda (ou Jornalismo de Moda) um olhar de desprezo. O que é bastante compreensível, se a gente parar pra pensar.
Eu parei pra pensar mais sobre isso há tipo um mês, quando estava na casa de um amigo (estudante de Direito, o Matheus), com meu namorado, o irmão dele e minha prima (todos estudantes de outras coisas nada a ver com moda), e a gente começou a ver o Esquadrão da Moda inglês. E aí meu amigo começou a perguntar sobre a relevância do programa, e de por que raios a gente tem que estar ‘na moda’ e coisas do gênero.
Daí que a gente começou uma discussão muito boa sobre porque a moda é importante, mesmo que o individuo ache que só porque pega a primeira roupa que viu no armário ele “não está inserido no sistema da moda”.
Mas a primeira coisa que eu quero falar aqui é sobre ser compreensível que outros profissionais se achem no direito de “olhar com desprezo” pra quem trabalha com a moda. Aliás, quando eu falo “moda” eu tô falando meio que especificamente de Jornalismo de Moda, que é com o que eu tenho experiência, tá?
Acho que um pouco desse sentimento de superioridade do outro lado tem a ver com aquilo que escrevi no post sobre a Mão Invisível. Em outras profissões as coisas têm explicações. Não se fala muito de filosofia, sociologia, psicologia sem bases sólidas em teóricos, livros e empirismos, por exemplo. Por mais que pareça uma doidice, eles fazem questão de mostrar que tudo faz sentido, sabe?
Tipo, você não pode simplesmente falar, como um profissional, “ai, tal pessoa age dessa maneira porque na infância ela foi tratada de tal jeito”, assim, na lata, sem base, sem citar Freud (ou qualquer outra pessoa importante nesse assunto que eu obviamente não sei bulhufas), sem explicar direitinho.
O que eu quero dizer e não consigo fazer de maneira concisa é que todo mundo precisa de embasamento na hora de mostrar ao mundo porque o que ele está dizendo/fazendo/criando/criticando não é bobagem.
E muitas vezes o que sinto é que o povo de fora total tem razão quando olha torto pro povo da moda, já que parece que tanto em revistas, blogs, sites e programas de TV não se faz muita questão de explicar porque RAIOS a gente deveria levar a sério o que eles tão fazendo. É quase sempre a mesma nota repetida a exaustão: “Aparência conta, a primeira impressão é a que fica, e se você não quiser fazer papel de palhaço, escuta aqui o que a gente tá falando”.
Quase tudo o que vejo são regras misturadas com gosto pessoal, baseadas em alguma bonitinha de Londres ou riquinha francesa, sobre o que, como, quando e onde a pessoa deve usar. E às vezes, tudo (?) isso vem junto com textos mal escritos, com erros ortográficos, gramaticais e até de nomenclatura, e nada de apuro.
E é só isso mesmo?
No meio do “debate”, o Augusto, que faz Biologia e é meu cunhado, disse assim pro nosso amigo: “Os seres humanos são mamíferos predominantemente visuais, e não olfativos, como a maioria dos outros mamíferos. Enquanto os outros mamíferos baseiam suas relações no cheiro, nós partimos do visual, ou seja da aparência. E é por isso que aparência conta”. E aí Matheus respondeu “Até que enfim alguém me deu uma resposta que faz sentido”.
Depois disso, amiguinhos leitores, eu comecei a pensar sobre esse texto. A moda se leva tão a sério, tão a sério, a ponto de esquecer que como tudo que é sério, precisa ser ‘manejada’ com seriedade, e não como simples passatempo.
E assim, levada sem seriedade, acaba irritando tanto quem é de fora, quanto quem tá dentro, trabalhando e amando isso. Por que não sei vocês, mas eu não gosto nadinha do jeito como as coisas estão.






Quando surge esse tipo de discussão eu tenho uma resposta muito simples: Moda e toda sua cadeia é o segndo setor que mais emprega no país. Foi a indústria têxtil uma das responsáveis pela crise de 29… E qual o primeiro marco cultural da história da humanidade (ocidental pelo menos)?? Adão e Eva terem que se cobrir pq foram expulsos do paraíso. A importância da moda foi definida aí. Beijos
Gostei muito do post e dessa metalinguagem sobre a moda que você levantou. É uma questão válida pra pensar, já que, direta ou indiretamente, todos estamos inseridos nesse universo.
Adoro a Trinity e a Susannah!
Posso ter o direito de uma opinião, como alguém que não conhece quase nada sobre moda?
Qualquer produto cultural, seja música, quadros, teatro, intervenções e, inclusive, moda, deve ser levado a sério. Nos ajuda a entender e a construir a realidade.
Não vou começar uma discussão sobre se a arte imita a vida ou ao contrário, catarse ou sei lá.
Mas, pessoalmente, prefiro quando a arte se relaciona de algum jeito com a nossa vida, o cotidiano, nossos sonhos, do que a arte puramente pela arte.
E a moda também. Você já falou umas mil vezes que jornalismo de moda não pode ser só “tendencinha” ou coisas assim, e eu concordo.
Um beijo!
Defina moda. Necessidade? Arte? Pragmatismo? Personalidade? Geração de Empregos? Futilidade?
Achei muito o bom o texto. E realmente, temos que defender o que somos e fazemos com bases sólidas, para não sermos tachados de palhaços ou charlatães.
Beijos teté.
;*
Quando me deparo com textos assim, com essa mesma discussão sobre a relevância da moda na vida de cada um, eu me recordo do filme ‘O diabo veste prada’ e, especificamente, do diálogo (mais um monólogo, na verdade) entre a Miranda e Andreia sobre o suéter azul, e aquela ‘explicação’ para mim definiu toda e qualquer indagação sobre a moda, o porquê e a importância dela, por mais contrário que a pessoa fosse ao vínculo da futilidade que está ligada a esse mundo ele teria que concordar com o argumento da Miranda de que qualquer peça do fundo do nosso guarda roupa teve que ser elaborada, pensada, criada e isso é moda, desde a cor aos detalhes, e ninguém pode fugir disso.
Nunca parei e pensei dessa forma, me colocando no lugar do outro, pra mim era pura e simples implicância e má vontade de quem perguntava ou comentava. E nunca me dei esse trabalho de levar a pessoa tão a sério, ou me levar a sério aos olhos dos outros.
Parabéns, pelo blog.
Beijos :)
Ótimo post, Té! Algum filósofo dizia que, para comprovar a existência de alguma coisa, bastava duvidar. Duvidar da moda quanto à sua importância é o primeiro passo para a gente quebrar esse preconceito que muitas pessoas têm dela. Beijão!
Concordo com você, Belezinha. Mas tenho algumas ressalvas que acho importante registrar aqui. Pelo que eu entendi, sua birra não é com o fato da moda, em si, ser ou não séria. Seu problema é como o modo como ela vem sendo reportada. Jornalismo barato, sem apuração, sem embasamento e as vezes meio nebuloso quanto a sua credibilidade e sua integridade (mais isso já é outro assunto).
Ok, a moda precisa ser levada a sério, fato. Mas isso não significa que a moda é séria ou precise ser séria para ser lavada a sério, catou? A moda é ou pode ser supérfula, sim. Pode ser e muitas vezes é fútil. Mas e daí? Quantas futilidades hoje em dia não são essenciais para a formação de uma cultura (pop ou não) e do imaginário do indivíduo? Não é porque a moda está falando de rendas e babados, de tons pastel ou de pretos góticos que ela é menos importante ou simbólica de algo com contornos eruditos ou formais.
Tem que tomar cuidado para essa discussão não cair em discussões de um classicismo quase que acadêmico, naquela vontade, meio complexo de inferioridade que a moda (e o povo da moda) tende a sofrer, por se achar pertencente a uma tal arte inferior. E daí, ficar tentando se elevar ou se apropriar de formas de expressão artísticas tidas como mais nobres simplesmente por cumprirem um papel histórico envolto em tradições e formalidades hoje já algo vazio de sentido.
É isso…
Engraçado como “a moda é supérflua”, mas andar pelado não pode. E pessoas morrem de frio na Rússia. Mas se alguém falar que a música é supérflua, estará cometendo um sacrilégio. E eu bem conheço várias pessoas que música sim, música não – na verdade pra elas tanto faz. Ou como arquitetura é reduzida à decoração, mas carros sim precisam ter um design assim ou assado. Ou como é cara uma poltrona de 400 reais na TokStok, mas um sapato de 200 na Santa Lolla é incrível – e a poltrona vai ficar na sua casa por anos a fio, mas o sapato você bem vai querer outro na próxima coleção. E assima gente vai divagando…
Fútil é quem critica moda… quem trabalha com ela é artista!