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Pensando cá com os meus botões

Acho interessante como alguns grupos adoram atacar a moda pelo seu teor “ditador”, “opressor”, pela importância demasiada com a aparência, esse tipo de coisa. Como se “ok, a gente não pode falar que é algo fútil, já que emprega uma pancada de pessoas, movimenta a economia pra caramba e todo mundo tem que se vestir mesmo, mas já se importar com isso é outra história, porque a moda existe desde seu começo como forma de diferenciação social, e é assim até hoje” (maior aspas de pensamento inventado ever).

Muitas vezes, quando alguém quer tentar me convencer que o que eu amo e o ambiente no qual eu estou inserida é menos “nobre” do que outros, geralmente o argumento usado é esse, que afinal, é um mundo em que as pessoas se importam mais com a aparência do que com, sei lá, QI ou a pobreza.

Quem convive comigo sabe que eu procuro andar sempre muito arrumadinha, de sapatinho alto, batom vermelho, essas coisas. E eu sou assim no dia a dia mesmo. E por isso eu vou assim pra faculdade.

E calhou que nesse semestre estou tendo aulas só na FFLCH, onde “dizem” que a última preocupação da vida é a roupa, a moda, essas coisas. Tá cheio de estudantes de história, letras, ciências sociais, que querem mesmo e estudar. Só que não é bem assim. Estando no ambiente com mais frequência, a gente vai catando umas coisas né? (assim, usando a fflch para analisar o todo)

Como por exemplo, que quase todo mundo me olha torto quando eu entro no prédio com meu salto téc-téc, minha boca vermelha, meu ‘look do dia’. Na aula, na hora de fazer um comentário, rola aqueles olhares enviesados ou de desdém que dizem “pfff, o que essa menina tá fazendo aqui?”.

E duvido que isso seja mérito só meu. Acredito que isso aconteça com muita gente por aí que por motivo x ou y resolveu se preocupar 5 minutos a mais com o que ia vestir pra sair pro mundo. Tanto que já ouvi várias vezes “jura que você vai assim pra USP? E as pessoas não olham feio, não?”. Ou seja, é meio consenso que isso acontece.

Isso obviamente não é um post de “oh meu deus, como sofro preconceito (risos) na minha universidade”. É algo que estava pensando há um tempo e daí na minha última aula _quinta-feira, de elementos de ciências políticas_ o cidadão que estava sentado na cadeira atrás de onde eu estava sentado, olhou pra mim e deu uma risadinha sarcástica assim que eu cheguei. Sei lá né gente. Tacar pedras nos outros por que esse grupo “só se liga nas aparências” quando qualquer (leia-se qualquer mesmo) pessoa faz a mesma coisa, é muita falta de autocrítica.

No fim, o que eu quero dizer mesmo é que julgar pelas aparências, se importar se a pessoa está vestindo uma roupa assim ou assado ou se está com o cabelo de um jeito ou de outro não é só mérito da moda. Isso está intrínseco na maior parte dos seres humanos. E isso não é necessariamente ruim ou bom. Se importar com moda _ou com roupa_ ou não se importar não faz ninguém melhor ou pior do que outra pessoa.

E se colocar em um patamar de superioridade intelectual só porque você “tem outras coisas para se preocupar” e achar a coleguinha fútil só por ela “aparentar” ter outras prioridades não é lá algo que faça muito sentido. É contraditório, não?

Afinal, se geral tivesse mesmo zero interesse nas aparências dos outros, eu, o Zé e a Maria poderíamos ir pra faculdade ou pra qualquer buraco usando Alexandre McQueen ou Alta Costura e ninguém ia nem dar bola.

Todo mundo tem seus valores e analisa-interage com os outros a partir deles. Não é só o povo da moda. Nem só o povo da esquerda. Somos todos.

UPDATE: Usei a FFLCH meio como exemplo. Lá eu percebo isso de uma maneira mais forte. Mas não é só lá e muito menos é todo mundo lá. Não é algo exclusivo da FFLCH, ou da FEA ou da FAU, ou da ECA, lugares onde eu também super frequentei. É algo que pode e provavelmente está em todo lugar. E é isso :)

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Ser editor de moda, por Paulo Martinez

Sabe Olimpo? Aquele lugar onde todos os deuses gregos se reúnem e a gente fica imaginando como é, quando lê um livro que fala disso? Então, eu tenho um Olimpo próprio na minha cabeça, só com as pessoas que eu acho sensacionais na Moda e que eu super acho que podiam ocupar uma poltrona bem gostosa no que eu chamaria sem nenhuma originalidade de Olimpo das Modas.

Uma dessas pessoas é o Paulo Martinez, @arrudaneles no twitter e Tio Paulo no coração. Ele é editor de moda da MAG!, uma revista que nem é só de moda, mas também de cultura, arte e muita (!) coisa linda. E a parte de moda é muito incrível, porque Paulo vai além do que a gente vê em quase todas as publicações de moda por aqui, tipo ‘fundo branco + modelo pulando com uma roupinha bonitinha’. Nã ná ni ná não. Paulo sempre tenta (e consegue, se me permitem parecer um pouco puxa-saco, mas tô sendo honesta) contar uma história, de fazer ou a gente suspirar, ou a gente pirar, ou a gente pensar.

(roubei a foto da Oficina de Estilo)

Sério, se vocês gostam de moda (e querem trabalhar com isso, especialmente) e ainda não conhecem o trabalho do Paulo, façam o favor de correrem atrás do prejuízo. Vocês podem ver as edições passadas da MAG aqui ó.

O Paulo já trabalhou em Elle, Vogue (tudo das antigas), com a Regina Guerreiro, e começou em revista de decoração, sabiam? Ele fazia produção, arrumava as coisas daquele jeito de revista de decoração que a gente queria fazer em casa, mas não consegue. Ele contou que tudo isso deu uma baita noção de espaço e proporção de fotos, de como montar um cenário, uma coisa bonita. Pra vocês verem que aprendizado vem de tudo quanto é lugar.

Depois disso ele fez revista de noiva (isso tudo há um tempão atrás, eu nem era nascida, hihi), e ele contou que o esquema era muito diferente de como as coisas são hoje. Na época eles tinham que fotografar tipo as filhas~sobrinhas~netas dos donos das lojas de vestidos de noiva, e vocês bem sabem que elas não eram necessariamente lindas, altas e magrelas, então tinha que dar muito truque. Um deles era colocar as meninas em cima de um monte de lista telefônica embaixo dos vestidos, pra elas parecerem mais altas!

(Agência Fotosite)

Eu poderia fazer um livro sobre a vida & carreira do Paulo, mas né. Daí que tudo isso é pra contar um pouquinho sobre ele e falar que ano passado eu e amigos – Rafa, Bia, Lucas, Marina e Nath – fizemos um trabalho de vídeo com o Paulo! Nosso professor amou, então suponho que vocês também vão gostar, haha.

Ele conta um pouquinho (tem só 5 minutos porque era o que pedia o trabalho) sobre o que ele faz e o que ele pensa sobre ser editor de moda. Em um momento que qualquer pessoa que use roupa e tenha internet ache que pode falar sobre moda, é bom ver e ouvir gente que entende de verdade falando sobre trabalho, de verdade.

Quer ser editor de moda? Quer trabalhar com moda? Quer falar de moda? Quer ser relevante? Assista ao vídeo e aprenda um tiquinho! Espero que eu tenha aprendido! E que vocês gostem <3

foto que eu amo muito da Ju Knobel, com dois deuses, Paulo e Costanza

Bisous,

Stephanie Noelle

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Vamos ser sérios?

A maioria dos meus amigos não são “da moda”. São pessoas que estudam e trabalham com outras coisas, tipo Engenharia, Administração, Direito, essas profissões que costumam direcionar pra Moda (ou Jornalismo de Moda) um olhar de desprezo. O que é bastante compreensível, se a gente parar pra pensar.

Eu parei pra pensar mais sobre isso há tipo um mês, quando estava na casa de um amigo (estudante de Direito, o Matheus), com meu namorado, o irmão dele e minha prima (todos estudantes de outras coisas nada a ver com moda), e a gente começou a ver o Esquadrão da Moda inglês. E aí meu amigo começou a perguntar sobre a relevância do programa, e de por que raios a gente tem que estar ‘na moda’ e coisas do gênero.

Daí que a gente começou uma discussão muito boa sobre porque a moda é importante, mesmo que o individuo ache que só porque pega a primeira roupa que viu no armário ele “não está inserido no sistema da moda”.

Mas a primeira coisa que eu quero falar aqui é sobre ser compreensível que outros profissionais se achem no direito de “olhar com desprezo” pra quem trabalha com a moda. Aliás, quando eu falo “moda” eu tô falando meio que especificamente de Jornalismo de Moda, que é com o que eu tenho experiência, tá?

Acho que um pouco desse sentimento de superioridade do outro lado tem a ver com aquilo que escrevi no post sobre a Mão Invisível. Em outras profissões as coisas têm explicações. Não se fala muito de filosofia, sociologia, psicologia sem bases sólidas em teóricos, livros e empirismos, por exemplo. Por mais que pareça uma doidice, eles fazem questão de mostrar que tudo faz sentido, sabe?

Tipo, você não pode simplesmente falar, como um profissional, “ai, tal pessoa age dessa maneira porque na infância ela foi tratada de tal jeito”, assim, na lata, sem base, sem citar Freud (ou qualquer outra pessoa importante nesse assunto que eu obviamente não sei bulhufas), sem explicar direitinho.

O que eu quero dizer e não consigo fazer de maneira concisa é que todo mundo precisa de embasamento na hora de mostrar ao mundo porque o que ele está dizendo/fazendo/criando/criticando não é bobagem.

E muitas vezes o que sinto é que o povo de fora total tem razão quando olha torto pro povo da moda, já que parece que tanto em revistas, blogs, sites e programas de TV não se faz muita questão de explicar porque RAIOS a gente deveria levar a sério o que eles tão fazendo. É quase sempre a mesma nota repetida a exaustão: “Aparência conta, a primeira impressão é a que fica, e se você não quiser fazer papel de palhaço, escuta aqui o que a gente tá falando”.

Quase tudo o que vejo são regras misturadas com gosto pessoal, baseadas em alguma bonitinha de Londres ou riquinha francesa, sobre o que, como, quando e onde a pessoa deve usar. E às vezes, tudo (?) isso vem junto com textos mal escritos, com erros ortográficos, gramaticais e até de nomenclatura, e nada de apuro.

E é só isso mesmo?

No meio do “debate”, o Augusto, que faz Biologia e é meu cunhado, disse assim pro nosso amigo: “Os seres humanos são mamíferos predominantemente visuais, e não olfativos, como a maioria dos outros mamíferos. Enquanto os outros mamíferos baseiam suas relações no cheiro, nós partimos do visual, ou seja da aparência. E é por isso que aparência conta”. E aí Matheus respondeu “Até que enfim alguém me deu uma resposta que faz sentido”.

Depois disso, amiguinhos leitores, eu comecei a pensar sobre esse texto. A moda se leva tão a sério, tão a sério, a ponto de esquecer que como tudo que é sério, precisa ser ‘manejada’ com seriedade, e não como simples passatempo.

E assim, levada sem seriedade, acaba irritando tanto quem é de fora, quanto quem tá dentro, trabalhando e amando isso. Por que não sei vocês, mas eu não gosto nadinha do jeito como as coisas estão.

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Agora é “Officiel” ;D

Daí que há algumas semanas eu disse que tinha uma novidade, né? Eu já contei pelo twitter (@hello_sunshine), mas acho de bom tom vir ao Petite Beauté e tornar oficial pros meus leitores e amiguinhos :D

Após 2 anos como estagiária do Portal FFW, eu começo 2012 com emprego novo, função nova e em revista nova, uhul!

A partir de agora visto completamente a camisa da nova L’Officiel, publicação francesa, que após sair de circulação no Brasil, volta em Maio (ansiedade!), publicada pela joint-venture entre a editora Escala e a Jalou, a editora francesa dona da publicação.

No time, minha ídola-master da moda (e mãezinha postiça nas horas vagas ♥), Erika Palomino como Diretora de Redação, Sérgio Amaral como Editor-Chefe e Tati Cavalin, na coordenação de Moda. E eu entro na história responsável por tudinho que diz respeito à Beleza!

Não consigo nem dizer o quanto eu tô empolgada, feliz, inspirada, ansiosa e acreditando loucamente no projeto. Recebi essa notícia dia 09 de dezembro e tô em estado de êxtase desde então. Obrigada a todo mundo que me deu os parabéns e disse coisas do tipo “Agora eu vou começar a ler revista de moda!”, e aos meus amigos _e namorado!_ queridos que tornam esses momentos de conquista muito mais especiais! ♥

Espero que vocês que me lêem aqui comprem todas as revistas das bancas e façam a gente muito (mais) feliz!

E é isso! Tô trabalhando no Fashion Rio, e qualquer coisa dou um oizinho por aqui. Ah, tem o twitter né, que a gente usa mais do que blog hihi

Bisous de uma menina muito animada!

A foto é da Nuta, do GWS Mag, minha carioquinha querida!

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Why don’t you…

E a boa filha a casa torna, né? Após um período sabático (só que ao contrário), estou de volta, porque aqui é o meu lugar. Quer dizer, estou de volta 75%. O tempo continua escasso, mas ao contrário do que as pessoas costumam me sugerir, tipo “Pega mais leve, faça menos coisa”, eu estou trabalhando como nunca.

O que é uma delícia. É muito gostoso e dá orgulho pra dedéu ter 21 anos e estar no meu caminho, começando a construir os meus sonhos, escrever sobre o que gosto, conhecer gente incrível… Mas né, esse post de retorno nem é pra ser um auto clipping do que eu ando fazendo ao invés de escrever aqui.

A verdade é que estou viciada na Diana Vreeland. Recentemente escrevi uma matéria sobre ela para a revista digital U+MAG, a pedidos do meu amado Luigi Torre, e algumas semanas depois, assisti a uma mesa sobre ela no Pense Moda, com a Gloria Kalil e Charles Cosac. Não bastasse, eu encomendei um de seus livros, o “D.V.”, e comprei a versão traduzida do “Allure” no evento, que será lançada no Brasil logo logo (tipo em novembro já), pela Cosac & Naif. Já dá até pra comprar em pré-venda no site, por R$ 79 (oi, isso não é um post pago hahaha), para quem quiser.

E daí que eu queria muito falar dela aqui, mas ainda não tô com tempo pra isso, infelizmente. Então, queridas e queridos leitores e amigos, deixo vocês com a minha matéria sobre a Diana e a trilogia “The Eye Has To Travel” que escrevi para a U+MAG dessa que foi, na minha humilde opinião, a maior editora de moda da história ocidental. E eu volto pra falar mais dela, me aguardem!

“Por que você não pinta o mapa do mundo nas quatro paredes do quarto do seu filho para que ele não cresça vendo as coisas de um jeito provinciano?”

(uma das frases mais inspiradoras que já li, de autoria, claro, de Diana Vreeland)

(imagem feita pelo Romeuuu, para a U+MAG)

POR QUE VOCÊ NÃO…

Fãs de Diana Vreeland, uni-vos! E se você não faz ideia de quem ela foi, esse é momento certo para descobrir. A lendária editora de moda das revistas Harper’s Bazaar e Vogue é a protagonista de uma trilogia, chamada “The Eye Has To Travel”: um livro, uma exposição e um documentário!

O filme lançado no Festival Internacional de Cinema de Veneza é baseado nas diversas conversas que George Plimpton teve com Diana enquanto editava sua autobiografia. Há ainda vídeos do comecinho de sua carreira, e dela ainda jovem, entrevistas para a televisão e depoimentos de pessoas como Andy Warhol, Calvin Klein, Hubert de Givenchy, Diane von Furstenberg, Richard Avedon, Angelica Huston e Ali MacGraw. As histórias de como Vreeland alavancou a carreira de nomes como Manolo Blahnik, Missoni, Twiggy e Lauren Bacall também estarão lá.

Diana em seu escritório, em Nova York. Não sei vocês, mas eu amo foto das pessoas em seus ambientes de trabalho

Já o livro será lançado em circuito internacional em 1º de outubro, e a exposição em março de 2012, em Veneza, e são todos resultados de um trabalho de três anos de Lisa Immordino Vreeland, esposa do neto da editora, que percebeu que as duas únicas boas publicações sobre a vida de Diana eram os escritos pela própria. “Eu acredito fortemente que o legado que a Sra. Vreeland deixou é extremamente forte e profundo, e vai além de uma “mera” revolucionária da moda: ela realmente ajudou a mudar a história social e emancipar as mulheres. Sua vida, que durou de 1903 até 1989, é em todos os sentidos um retrato vívido do século XX.”, contou Lisa a Vogue Italia.

Diana Vreeland é também a perfeita representação dos dizeres “estar no lugar certo, na hora certa”. Nascida em Paris, mudou-se para Nova York no início da Primeira Guerra Mundial, mas fazia visitas frequentes à cidade natal, onde conheceu Gabrielle Chanel. Vreeland dançou com Josephine Barker no Harlem dos anos 20, testemunhou a coroação do Rei Eduardo VIII, viu Hitler na Ópera de Munique, foi ao baile do Preto e Branco de Truman Capote, foi amiga íntima dos Kennedy, estava em Nova York durante os “Swinging 60’s” e foi uma muito respeitada editora mulher durante a libertação feminina. Sobre tudo isso, costumava dizer que “a primeira coisa a se fazer é se organizar para nascer em Paris, depois disso, tudo acontece muito naturalmente”.

Foto de 1977, da revista Rolling Stone, com Diana em seu apartamento

Essa naturalidade também deu as caras em uma bela noite nos anos 30 quando Carmel Snow, então editor chefe da Bazaar, a viu dançando no “St. Regis” em NY, usando um vestido de renda branca Chanel e uma rosa nos cabelos. Ele a contratou imediatamente, que começou a escrever a provável coluna mais icônica da história da moda, “Why Don´t You…”. Apenas um ano depois ela se tornou editora de moda da publicação, e ficou no cargo por 25 anos, até sair para ser editora-chefe da Vogue, onde ficou por nove anos, até ser demitida e se tornar consultora do Metropolitan Museum of Art, onde criou o “Costume Institute”.

Em uma época em que o país estava emergindo da Grande Depressão, Diana sugestionava seus leitores das maneiras mais originais possíveis, tanto em matéria de estilo, como usar chapéus de frutas ou palitos japoneses nos cabelos, quanto de estilo de vida, como “Por que você não… lava os loiros cabelos de seu filho em champagne amanhecido para mantê-los dourados, como fazem na França?” ou “Por que você não… constrói uma escada interna do seu quarto até a biblioteca com um carpete bordado com notas musicais em cada degrau – em que todas formam sua canção favorita?”.

O ponto não era que as pessoas fizessem tudo aquilo. Ela queria inspirar as mulheres a pensaram fora da caixa e a quebrar regras, acima de tudo. Sua coluna era impressa na diagonal, ao invés da maneira tradicional, inclusive.

Anos depois, os conselhos e a intenção de Vreeland parecem valer mais do que nunca: “Ela era verdadeiramente original, e acho que as pessoas estão se esforçando por originalidade”, falou Lisa. E não é a mais pura verdade?

Foto de Richard Avedon, de 1955, com Diana Vreeland, a modelo Dovima e o próprio Avedon

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A mão invisível

Daí que eu queria ser diplomata, achei que não me faria feliz e optei pelo Jornalismo.

Então fui pro Jornalismo de Moda, assim, com primeira letra em maiúscula, o temido e glamuroso mundo da moda, igualzinho ao filme da Meryl Streep e Anne Hathaway, Cláudia. Acontece que eu amo um jornalismo de moda que quase não existe. Não amo as tendências, o ‘tem-que-ter’, o como usar. Eu amo a moda como sociologia, como expressão e comunicação do indivíduo, ou de uma sociedade, ou de uma época. Eu gosto de pesquisar. Eu gosto de ler, e escrever, que o fetiche tá na moda e POR QUE. Como, quando, onde, o que isso significa, ou se não significa nada. Quero saber, e quero que as pessoas saibam, que a maioria das coisas existem por um motivo.

Odeio ler uma revista/site/blog e a moral da história ser ‘Então, na moda a gente meio que tem uma ‘mão invisível’ também, tipo aquela que Adam Smith propôs pra Economia, então é assim e ponto’. Não, não quero que seja assim. Isso é fútil. Isso é não dar a menor pelota pelo mundo que nos rodeia e o que ele influencia na moda e o que a moda influencia nele. Isso é ser superficial.

Dizer “o color blocking tá na moda, e se você quiser estar um passo a frente, aposte” é vazio. “Um passo a frente” no que? Na escala evolutiva darwiniana da moda? Ou só vai fazer aquela pobre pessoa que lê e acredita piamente naquilo vestir uma blusa verde e uma saia rosa e achar que é melhor do que alguém, que está um passo a frente.

Eu sempre achei que moda é uma espécie de jogo de cartas. A cada temporada, você tem coisas que fazem mais sentido naquela época, por algum motivo (e não pela mão invisível das editoras de moda), e aí você, que é influenciado pelo mundo – e pela moda – vai usar algumas dessas cartas para montar seu jogo, ou seja, pra expressar sua personalidade. Vai escolher coisas que fazem sentido na vida, e não simplesmente coisas que estão na moda, ai meu deus, preciso ter.

Nessa última temporada de moda, a roupa era a mesma, só mudava o rosto. Porque até a cabeça é igual, porque quase todo mundo é igual e pensa e fala das mesmas coisas sempre. Era tipo aquelas bonequinhas de papel, de vestir. Recortaram umas três dúzias de looks iguais e o povo grudou em si mesmo.

E isso é um reflexo de como anda toda nossa mídia de moda, blogs e sites inclusos, que só joga o modelo pronto para os seus ávidos leitores, que claro, querem a fórmula pronta. É triste para mim, quando a gente publica uma matéria incrível no FFW, com conteúdo, e nego se interessa mais pela matéria das tendências-tem-que-ter da estação. Eu sei, porque eu vejo os cliques, as visualizações de página.

O povo quer que a gente diga exatamente como ele tem que se vestir (e se portar, e ser, e ouvir), ali, a fórmulinha pronta, para que nem ele, e nem quem escrever, tenha que pensar muito. Ele quer ser igual a celebridade que usou aquilo, ou ao “ícone de estilo” que usou, ou igual ao desfile. Chego à conclusão que hoje a audiência de moda quer mesmo é ser igual.

Ouço sempre dizer que, na moda, não é o que você usa, mas como você usa. Sinto dizer, mão invisível do universo da moda, mas a mensagem tá chegando truncada aqui nesses lados.

As imagens são pra moda, e pra vida, sempre :)

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Tipo um feirão de semi-novo

Tô com uma dúvida chatinha por esses dias. Até que ponto a gente sente vontade de algo naturalmente, e a partir de qual ponto a gente sente vontade por influência de outras fontes? Ou as duas coisas estão intimamente ligadas, e tudo o que a gente quer não é um desejo nato, mas uma construção que surge de tudo o que a gente assiste, lê, escuta e tudo mais, aliado a nossa personalidade?

Todo esse primeiro parágrafo por exemplo, só ao escrever, já me fez pensar em um outras coisas, como as “tendências”, que supostamente traduzem as nossas vontades, e também a maneira como as imagens de moda são feitas: elas são feitas primeiramente para inspirar, e fazer nascer uma vontade dentro da gente, ou são ecos do que o mundo está amando?

Sinto que esta discussão é do teor daquela do ovo e da galinha, e eu não chegaria a nenhuma resposta sozinha. Na minha cabeça é todo um círculo, que sai de um ponto e volta a ele mesmo, over and over. Essa semana, inclusive, vou me encontrar com a Carol, que trabalha no WGSN, e super vou tentar entender como isso funciona.

Mas isso tudo surgiu quando vi no Fashionista que a coleção de verão da Prada estampou até agora umas 15 capas de revistas. Update: Hoje a contagem já estava em 48! A coleção de verão da Dolce&Gabbana também está nas paradas de sucesso do mercado editorial, junto com a da Gucci. Temporada passada a gente teve um monte de Miu Miu sendo capa de revista, e na temporada anterior, mais Miu Miu, dessa vez com a coleção de estampas de gaivotas e gatinhos e coisas fofas.

Aí, até um tempinho atrás, eu era ingênua, e achava que as editoras de moda escolhiam um look que fosse emblemático, de uma coleção incrível, que traduzisse as vontades daquela estação. Uma coisa bem incrível assim. Sentia que a parte de escolher look de capa era uma das maiores responsabilidades de uma editora, e uma função social (dentro da moda) bem importante.

Porém, como nem tudo são flores, eu aprendi que a escolha das capas de grandes revistas nada mais é que acordo comercial. A capa de mês X é da LVMH, do mês Y do Grupo Gucci e assim por diante. E não to querendo fazer post denúncia, do tipo “ATENÇÃO, isso acontece e ninguém sabe”. Porque todo mundo sabe, não descobri o terceiro segredo de Fátima.

Muitas vezes a coleção-look é incrível o suficiente para estar numa capa por si só, sem precisar de acordo nem nada, e muitas vezes essa escolha tem mesmo esse apelo de “representar o momento de moda pelo qual o mundo está passando”. Afinal, acho pouco provável que as revistas coloquem uma roupa qualquer-coisa na capa.

Porém, essa superexposição me causa muito mal estar. Com o bombardeio da mesma roupa, que é reproduzida 15 vezes, ao invés de criar desejo em mim, de ter aquela roupa, ou de usar algo minimamente parecido com ela, eu enjôo. A imagem, para mim, não fica forte. Muito pelo contrário, ela banaliza. E o que, no princípio, era para exalar a ideia de exclusividade, vira feirão do semi-novo.


Imagem do blog Damas com Pimenta

Há um tempo, li um livro chamado “Deluxe – Como o luxo perdeu o brilho”, que falava que as bilionárias do mundo, aquelas que realmente consomem o que é apresentado na passarela, só compram roupas que não foram usadas por nenhuma celebridade ou tenha saído em capa de revista. Elas querem o exclusivo, elas querem o que vai fazê-las se sentirem especial, e não necessariamente algo que você vai usar e o salão de baile inteiro vai listar as 12 capas e 7 celebridades que também usaram a mesma coisa que você.

Acho que esse post é muito ranzinza, mas é que me incomoda quando as coisas são feitas até seu esgotamento, especialmente porque a moda, pra mim, tem a ver com respiro de ar fresco. Sempre me pego pensando, tem TANTA coleção com peça incrível sendo desfilada nas quatro principais semanas de moda do mundo (tirando BR, que também tem muita coisa legal), com idéias diferentes, que falam com públicos diferentes, mas que também representam o nosso tempo, se tem tanta opção, por que escolher sempre os mesmos cinco?

Me parece que o povo do marketing das marcas tá dando um tiro no próprio pé com tanta exposição. Porque até pode dar certo agora, mas acho, e espero do fundo do meu coração, que uma hora a maioria vai cansar dessa banalização, desse enfraquecimento, e vai querer voltar a ser diferente, ao invés de usar o uniforme da estação.

Ou será que todo mundo quer andar uniformizado?

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What you want, baby, I got!

Para começar a semana que tem tudo para ser meio friorenta, do jeito que eu mais amo, um vídeo lindinho da coleção de inverno da Maria Garcia, marca desejo nº 01 desta que vos escreve, por dois ótimos motivos: As roupas são bonitas, com jeito de menina cute-mas-com-ousadia, e são de uma qualidade invejáveis. Falo isso porque tenho algumas peças da marca, uso exaustivamente, e elas continuam lindas!

Uma das grandes tristezas da minha vida de cobertura de semana de moda é não ter mais desfile da Maria Garcia. Olha Clô, to aqui na torcida para que você coloque essas roupas lindas de novo nas passarelas, tá? Essa coleção foi inspirada nos filmes de Wong Kar Wai (de Amor à Flor da Pele e Beijo Roubado, dois filmes ótimos e que indico super!)

O vídeo é também um lookbook, que lembra um pouco aqueles que a J.Crew faz, e que todo mundo fica babando. Eu só sinto falta da gente ver de mais pertinho a roupa, tipo o suéter listrado, é glitter? É paetê? É brinks? Só sei que me identifiquei (quem não?) com a moçoila tendo devaneios de diva da música no meio da sala. Faço isso no mínimo 3 vezes por dia, às vezes em público.

Direção de criação: Beto Guimarães (Carme) | Styling: Equipe Maria Garcia + Carme | Fotografia: Ilana Bessler | Edição: Lucas Valente | Modelo: Jessica Bronitzki (Joy) | Beleza: Daniel Lacerda

Para quem gostou, a música é “Respect”, da naturalmente diva Aretha Franklin. O título do post vem das primeiras frases que ela canta. Tem uma música que a Aretha canta com a Annie Lennox, que André tuitou dia desses, que é uma delícia, além da letra ser ótima. Chama “Sisters Are Doin’ It For Themselves“. É só dar play aqui embaixo ;)

E a Jessica Bronitzki, a modelo, é uma fofura sem fim! A conheci enquanto Luigi e Brisa fotografavam um editorial pro FFW, no último SPFW, e acabei fazendo um ‘bico’ de assistente de Brisa, ajudando a vestir e desvestir a Jéssica. Sério, uma querida, e trabalha muitíssimo bem! O editorial SPFW_DAY #2, dela com o Fabiano Goedert é um dos meus preferidos da temporada.

Pesquisando um pouquinho, achei um lookbook da GIG, com a Jéssica. O clima é aquele já amado por todas: 60’s, coque gigantesco, delineador gatinho, cenário que queríamos reproduzir em casa, fotografia vintage e vestidos tubinhos. A receita express do ‘ahh, que fofo!”. Fora que, né, como não se apaixonar pelo rosto de boneca da Jéssica? Aliás, na vida real (haha), a Jéssica tem essa cara toda, mas tem um jeito meio tomboy, que eu adoro. Ela tava usando um vestido meio comprido, largo, da Cavalera, branco e azul, e coturnos. Tava incrível!

Beijo, boa semana!

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O Galliano, o preconceito e a indulgência

Foto do editorial “Dans La Peau de John Galliano” (ou “Na pele de John Galliano”, em português), publicado na Vogue Paris de Dezembro/Janeiro 2006.2007, com a modelo Sasha Pivovarova, que me pareceu bastante adequado para entrar neste post.

Não vou entrar no mérito de “certo” ou “errado” sobre o caso Galliano e o antissemitismo (se você não sabe do que se trata, clique aqui e escolha sua fonte). Esse post é fruto da indignação desta que vos escreve com uma parcela da mídia _ou do mundo_ que buscou frisar em seus textos que “o mundo da moda” iria esquecer rapidamente o assunto, que “o mundinho fashion” estava buscando desculpas para o ocorrido e que “o povo da moda” estava tentando colocar panos quentes sobre o assunto, entre outras insinuações.

Não é nenhuma mentira que trabalhadores da moda ao redor do mundo escreveram e enviaram mensagens de apoio ao estilista. E não acho que isso seja ruim.

Capa da Vogue Paris de Dezembro/Janeiro 2006.2007, com Dreww Barrymore, em homenagem ao estilista John Galliano, da Dior.

O que me incomoda de verdade é ver que uma enorme parcela do mundo _e dos jornalistas_ julga a moda como preconceituosa, sendo que muitas dessas pessoas são tão ou mais preconceituosas com a própria moda e com as pessoas que trabalham com ela. Dizer que “o povo da moda” vai esquecer logo e está procurando desculpas para o fato me parece muito prepotente.

Soa para mim como “vocês da moda não dão a devida importância aos assuntos envolvendo preconceito porque vocês já são naturalmente preconceituosos, mas nós da _insira aqui assunto que o mundo inteiro julga relevante_ faríamos diferente e execraríamos em praça pública qualquer um do nosso ramo que cometesse tamanho ato falho e jamais esqueceríamos e seríamos um exemplo”.

E não, não estou dizendo que a moda não é preconceituosa ou superficial. Ela pode sim ser. Mas qualquer outro ramo também pode.

Além disso, eu entendo e me coloco como parte das pessoas que estão sendo indulgentes com John Galliano. É bastante claro para mim que quando alguém que você admira muito, seja ela seu pai ou um estilista com quem você nunca falou, comete um erro, tendemos a ser complacentes. Procuramos respostas, queremos saber por que raios a pessoa fez aquilo, por que, deus do céu, ela foi nos decepcionar. E o “tamanho” do erro (é possível mensurar decepção? Duvido) pouco importa nesse nosso julgamento cheio de emoções e variáveis.

Se eu, que nunca cheguei perto de Galliano fiquei procurando respostas para o comportamento dele, imaginem as pessoas próximas ao estilista, que trabalharam com ele, e que talvez sejam amigas íntimas, como algumas editoras de moda _que o povo adorou julgar por aí_ , devem ter se sentido?

Um exemplo simples é quando um amigo, ou pai, mãe, namorado, etc, que você admira e gosta muito, comete um erro grave. Você imediatamente corta relações, julga, sai por aí falando mal e tacando pedras, ou você fica em negação, procurando respostas, tentando entender o por quê daquilo, e às vezes, acaba perdoando? Isso pode não ser certo, nem inteligente, nem bom para nossa vida, mas é o que eu entendo que fazemos pelas pessoas que nos são caras. Damos uma segunda chance (e as vezes mais do que duas, não é não?).

E por favor, não vão entender que eu estou justificando o que ele fez. Estou “defendendo a classe”. No caso, a classe “do povo da moda”, que pode ter muita gente imbecil e preconceituosa, mas disso o mundo tá cheio e não é privilégio da nossa trupe não.

Quando se fala em outras searas do conhecimento, não existe uma forte corrente que diz que Monteiro Lobato era racista e passava idéias preconceituosas nas suas histórias? E o autor é extremamente cultuado no Brasil. O francês Louis-Ferdinand Céline era militante antissemita assumido e chegou a dizer que a política nazista de Hitler era moderada (!!!) e sua importância para a literatura européia é bastante grande, tanto que ele seria homenageado este ano pelo governo da França (e não o foi devido a protestos).

Achei um trecho de uma reportagem de 2004 da Veja (não que eu a ache uma ótima referência) que cita as relações entre escritores e os regimes totalitários, e vou colocar um trecho aqui. A íntegra se encontra aqui.

Céline é um caso extremo da conjunção de gênio artístico e abjeção moral. Mas não é o único: os totalitarismos do século passado exerceram um fascínio mórbido sobre intelectuais e artistas. O fascismo e o comunismo respondiam, de certo modo, a um ímpeto revolucionário que não é incomum entre escritores. [...] Até no Brasil, o fascismo seduziu autores como o jovem Vinicius de Moraes (que depois oscilaria para a esquerda). E não custa lembrar que o integralismo, patética versão nacional dos extremismos de direita, tinha como líder um escritor – se bem que hoje ninguém mais lê os romances e poemas de Plínio Salgado.

Na Itália, o escritor D’Annunzio e o poeta futurista Marinetti aderiram ao fascismo. E Mussolini teria um porta-voz de maior gênio: o americano Ezra Pound, um dos mais inventivos poetas do modernismo, ajudou na propaganda fascista, fazendo transmissões radiofônicas em inglês. [...] Na Alemanha, Martin Heidegger, talvez o filósofo mais influente do século XX, filiou-se ao Partido Nazista em 1933. Terminada a II Guerra Mundial, a estratégia do autor de “Ser e Tempo” para limpar seu nome foi bastante covarde: silenciou sobre o assunto.

Especificamente na moda, Naomi Campbell já foi acusada inúmeras vezes de agressão e continua fazendo seu trabalho, Gabrielle Chanel se aliou aos nazistas na época da Segunda Guerra Mundial e hoje pessoas do mundo todo a cultuam e passaram uma borracha pelo assunto. Nenhum dos dois filmes sobre ela toca nesse assunto (Esse artigo da Bravo fala sobre a omissão do tema no filme “Coco Antes de Chanel”, inclusive).

A televisão, o cinema e a música também não estão livres de pessoas com condutas obtusas. Charlie Sheen, Mel Gibson, Chris Brown e Dado Dolabella (só consigo me lembrar de exemplos masculinos, no momento) são figuras públicas talvez mais conhecidas do que o estilista da Dior, que protagonizaram episódios de agressão (às vezes mais de uma vez) contra mulheres. E eu acho isso tão grave quanto preconceito.

E eles estão aí, na ativa, trabalhando, e o mundo _tanto do meio em que eles trabalham quanto o resto_ também foi indulgente com eles.

Não é comportamento exclusivo ‘da moda’ procurar desculpas, tentar perdoar e dar uma segunda chance ao seu rebanho. Mas a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, ou no caso, no “menos importante intelectualmente”, “mais fútil”, enfim, as possibilidades são infinitas.

É fácil levantar o dedo e apontar as falhas de caráter e de julgamento dos outros. Aliás, é fácil e politicamente correto, fica bonito, dá impressão de que você é ético e moralmente superior aquele grupo.

Mas isso é só uma impressão.

ps: O restante das fotos do editorial estão abaixo.

{imagens: fgr}

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A moda não tem que se colocar no seu lugar coisa nenhuma

Daí que hoje estava almoçando com duas amigas, a Babi e a Paula, e começamos a falar sobre moda, editoriais, blogs, e aí Paula citou um post do blog De Chanel na Laje (com textos ótimos), no qual a autora expõe sua indignação com o editorial Water & Oil, da Vogue Itália de Agosto de 2010.

O texto na íntegra você pode ver aqui. As fotos eu insiro após o texto. O André, do FFW, também já fez um texto sobre esse editorial aqui.

Pois bem. Assim como dona De Chanel se indignou, também me indignei, tanto com o texto dela, quanto com os comentários.

Para ficar claro, acho que todos nós temos direito de opinião, e acho que isso fomenta o debate (antes opiniões divergentes do que uma massa com opiniões padrões) e é muito benéfico.

Mas uma coisa que me chateia MUITO mais do que a autora e suas leitoras não terem gostado do editorial (cada um gosta e acha bonito o que lhe convém) são as pessoas acharem que a moda tem que se ater a moda.

Não mudar de assunto, não trazer debates, coisas novas, e por que não, instigar seu público? Surpreender, assustar, subverter, enojar, causar estranhamento, enfim, causar SENTIMENTOS e REAÇÕES. Alguma coisa além do marasmo e movimentos mecânicos de simplesmente virar uma página após a outra. Causar alguma coisa que te faça parar e realmente enxergar o que está na sua frente, não apenas bater o olho e ir em frente. E daí que é numa revista de moda e que a modelo tá vestindo Prada e na foto tem o preço da roupa? Acho que aí é até mais interessante, porque a pessoa está lá, lendo sua revistinha e TCHAN. Uma coisa inesperada, algo que surpreende. Algo que te faz, mesmo que por um espaço de tempo muito pequeno, pensar sobre aquilo.

Se  a mesma foto tá na National Geographic ou numa galeria de arte, você espera por isso. E tá preparado pra isso. Às vezes você está tão ‘esperando’ uma foto chocante, que no fim, aquilo nem te choca de verdade.

Eu não tava preparada pra ver fotos tão perturbadoras como aquelas numa revista de moda. E aquilo mexeu comigo.

E acho que é aí que tá a grande sacada.

Que mané “a moda se ater ao seu lugar“. Acho que quanto menos “mundinho’ ela for, mais interessante _e relevante_ ela fica.

Quando leio isso, me soa tão preconceituoso, sabe? É tipo aquelas esnobes que falam pra menina pobre da novela “Ponha-se no seu lugar!”. Que meu lugar? Quem disse qual o meu lugar? Por que não posso extrapolar as barreiras desse lugar imaginário que alguém algum dia delimitou?  Vou é quebrar barreiras, vou surpreender, vou chocar, vou ir além.

Chato é sempre levar ao público aquilo que ele já espera encontrar. Triste é se colocar num cercadinho e nunca mais sair, cumprindo o papel que alguém acha que é o seu. (E isso vale MUITO pra vida, se me permitem sair do assunto moda).

E não, não acho que o “povo da moda” quer fazer você achar um desastre ecológico no Golfo do Méximo cool e glamouroso. Nem tudo no mundo da moda tem que ser glamouroso. Talvez se você acha que a intenção é essa (ou que a intenção da moda é SEMPRE fazer isso), há uma certa necessidade de se despir dos preconceitos.

Por último, coloco na íntegra o comentário que deixei no post, porque acho que complementa o que quero dizer (mesmo que tenha algumas coisas redundantes, me perdoem):

“Gosto _e concordo_ com muitos dos textos escritos nesse blog, mas especificamente este me deixou inquieta.
Acho que dizer “Moda, faça uma coisa: atenha-se ao seu papel” nada mais é do que querer afirmar e tornar ainda mais forte a ideia de que moda é apenas consumismo e roupas de grife e “glamour”. Para muitas pessoas deve ser isso, para muitos veículos de mídias também. Espero que para alguns não.
Para mim, não.
Ao ver essas fotos pela primeira vez, e segunda, e terceira e assim por diante, me senti mal. Um nó na garganta. Tipo aquele que eu tenho quando vejo uma foto de um desastre no jornal. Acontece que o local era outro, as fotos estavam num veículo que ninguém espera que esteja.E isso surprende mais do que abrir o Cotidiano da Folha de S. Paulo. Surpreende e mexe bem mais.
Pode não mexer com todo mundo, mas e daí? Precisa generalizar? Nem.
Agora, dizer que a revista quis transformar um desastre em algo glamouroso e cool é a maior besteira que já ouvi. Não vejo glamour aí, não fiquei com vontade de me lambuzar de óleo e me afogar no Golfo do México pra ficar “na tendência”. Nem roupas eu vi aí, porque nem dá pra ver.
É um conceito. É uma maneira da moda sair, mesmo que às vezes, da sua bolha e levar uma mensagem de “ALOU GALERA, VAMOS ACORDAR?”.
E é claro que tem créditos. As marcas emprestam as roupas e o mínimo que elas esperam em troca é o nome aparecer na página da revista. É regra de produção de moda isso aí. Coisa chata e burocrática, mas fazer o quê?
Me irrita muito o extremismo das pessoas com relação à moda. Ou estamos sempre fechados em nosso mundinho, falando da cor do verão enquanto os EUA estão quase quebrando e “Ai meu deus do céu, como vocês são fúteis” ou estamos fazendo um editorial fotográfico sobre um desastre pra transformar aquilo em cool, desejável, glamouroso e vendável “E ai meu deus do céu, como vocês são grotescos, atenham-se a falar de moda”.
Bom senso, e temperança, é sempre bom. Vamos abaixar, por favor, as duas pedras nas mãos que temos em relação à moda.
Nem todo mundo trabalha com isso pra vender roupa, sentar na fila A e dar pinta.
Tem muita gente, equipes grandes, que se esforça ao máximo para fazer seu trabalho um pouco mais relevante e menos superficial.
Respeitemos os trabalhaos delas, porque elas se esforçam para não tratar o público como imbecil e trazer coisas novas e instigantes.”

Acho que esse assunto é extenso, mas comecei aqui um pouquinho desse raciocínio. Espero não ter falado besteira :x

As fotos estão meio miniaturas porque eram muitas, mas clicando elas ficam grandes.

Beijos :)

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